AC ou DC? Topologias de sistema para instalações solares
Introdução: Como é ligada a bateria?
Nos artigos anteriores foram abordados vários aspetos dos sistemas de armazenamento de energia. Falta, porém, uma questão prática essencial: como é que esta tecnologia é integrada de forma ideal na instalação da sua casa?
Na integração de baterias em sistemas fotovoltaicos existem dois conceitos básicos:
- Sistemas acoplados em AC (corrente alternada)
- Sistemas acoplados em DC (corrente contínua)
Este capítulo explica ambas as topologias com as respetivas vantagens e desvantagens, tendo em conta a realidade das instalações solares em Portugal.
Instalações solares acopladas em AC
Nos sistemas acoplados em corrente alternada (sistema AC), o inversor é instalado diretamente a jusante dos módulos solares e alimenta a instalação elétrica da casa com corrente alternada.
Configuração
Módulos solares (DC)
↓
Inversor (DC→AC)
↓
Rede interna da habitação (AC) ←→ Bateria + carregador
↓
Rede pública
Princípio de funcionamento
- O inversor converte de imediato a corrente contínua dos módulos em corrente alternada
- A bateria, com a respetiva eletrónica de carga, é ligada a jusante do inversor
- A bateria é alimentada com corrente alternada
- Para carregar, a AC tem de ser novamente convertida em DC
- Ao descarregar, a DC volta a ser convertida em AC
A troca de energia entre módulos solares e bateria faz‑se através de corrente alternada.
Vantagens da acoplagem em AC
A acoplagem em AC oferece vantagens decisivas, sobretudo em instalações já existentes:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Fácil instalação em sistemas existentes | A bateria pode ser adicionada posteriormente a uma instalação FV já em serviço |
| Independência de fabricante | É possível combinar componentes de diferentes marcas |
| Maior liberdade de implantação | A bateria pode ficar afastada do inversor, o que é útil em reabilitações |
| Tecnologia madura | Componentes amplamente utilizados no mercado português |
| Boa escalabilidade | Possibilidade de ampliar a capacidade de armazenamento com relativa facilidade |
Desvantagens da acoplagem em AC
A flexibilidade tem um custo – sobretudo em termos de eficiência:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Múltiplas conversões | DC→AC→DC→AC = perdas adicionais |
| Rendimento global inferior | Tipicamente 85–90% de eficiência “round‑trip” (carga–descarga) |
| Mais componentes | Necessidade de um inversor/carregador de bateria separado |
| Custos de equipamento mais elevados | Mais hardware e proteções |
| Instalação mais complexa | Maior quantidade de cablagem e coordenação entre equipamentos |
Rendimento típico
Na acoplagem em AC surgem perdas em cada etapa de conversão:
- Módulos solares → inversor: ~97%
- Inversor → carregador da bateria: ~97%
- Processo de carga/descarga da bateria: ~95%
- Bateria → inversor: ~97%
Rendimento “round‑trip” global: ~85–90%
Instalações solares acopladas em DC
Nos sistemas acoplados em corrente contínua (sistema DC), inversor e bateria são ligados em paralelo diretamente a jusante dos módulos solares.
Configuração
Módulos solares (DC)
↓
Conversor DC-DC
├── Bateria (DC)
└── Inversor (DC→AC)
↓
Rede interna da habitação (AC)
↓
Rede pública
Princípio de funcionamento
- Tanto a bateria como o inversor são alimentados diretamente em corrente contínua
- A bateria pode utilizar a DC dos módulos diretamente para carregar
- A corrente contínua só é convertida em corrente alternada no final, para alimentar a instalação da casa
- Menos etapas de conversão = maior eficiência
A troca de energia entre instalação solar e bateria faz‑se em corrente contínua.
Vantagens da acoplagem em DC
A ligação direta em corrente contínua traz vantagens claras em termos de eficiência:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Maior rendimento | Menos conversões de energia e menores perdas |
| Menos componentes | Um inversor central com gestão integrada da bateria |
| Custos globais mais baixos a longo prazo | Menos perdas e arquitetura mais simples |
| Melhor eficiência “round‑trip” | Tipicamente 92–95% |
| Carregamento mais rápido | Caminho DC direto entre módulos e bateria |
Desvantagens da acoplagem em DC
A maior eficiência implica algumas limitações:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Maior dependência de um único fabricante | Muitos sistemas exigem que inversor e bateria sejam da mesma marca ou certificados em conjunto |
| Menos adequada para retrofit | O sistema deve ser pensado como um todo desde o início |
| Planeamento mais exigente | A cablagem DC e a proteção contra sobretensões têm de ser cuidadosamente dimensionadas, de acordo com o REBT e normas harmonizadas EN |
| Comprimentos de cabo limitados | Recomenda‑se manter os troços DC tão curtos quanto possível para reduzir perdas e riscos |
| Menos flexibilidade de expansão | Aumentar a potência FV ou a capacidade de bateria pode exigir substituição do inversor ou de outros componentes |
Rendimento típico
Na acoplagem em DC existem menos etapas de conversão:
- Módulos solares → conversor DC‑DC: ~98%
- Processo de carga/descarga da bateria: ~95%
- DC → inversor → AC: ~97%
Rendimento “round‑trip” global: ~92–95%
Comparação direta
Para facilitar a escolha entre acoplagem em AC e em DC, segue uma comparação direta dos dois conceitos:
| Critério | Acoplagem em AC | Acoplagem em DC |
|---|---|---|
| Rendimento | 85–90% | 92–95% |
| Instalação em sistemas existentes | Simples | Difícil |
| Flexibilidade | Elevada | Limitada |
| Custos iniciais | Mais elevados | Mais baixos (para sistemas novos bem dimensionados) |
| Custos a longo prazo | Maiores (perdas superiores) | Menores (melhor eficiência) |
| Complexidade do sistema | Mais componentes | Menos componentes |
| Escolha de fabricante | Livre | Frequentemente condicionada |
Inversor híbrido: o melhor de dois mundos
Os inversores híbridos modernos atenuam a separação rígida entre AC e DC.
Conceito
Nos sistemas com inversor híbrido, todos os componentes convergem num único equipamento central:
- MPPT integrado para os módulos solares
- Conversor DC‑DC para a bateria
- Inversor para a rede interna da habitação
- Sistema inteligente de gestão de energia
Vantagens do conceito híbrido
A integração de todas as funções num único aparelho combina as melhores características das duas abordagens:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Rendimento otimizado | O sistema escolhe automaticamente o caminho mais eficiente (DC ou AC) |
| Solução compacta | Um único equipamento em vez de vários módulos separados |
| Instalação simplificada | Menos cabos, menos quadros e coordenação mais simples |
| Componentes ajustados entre si | Inversor, carregador e gestão de bateria concebidos para funcionar em conjunto |
Gestão de energia: o “cérebro” da instalação
Independentemente da topologia, o sistema de gestão de energia (EMS – Energy Management System) é determinante. É, em termos simples, o cérebro da instalação.
As quatro funções principais
1. Gestão de cargas
O EMS monitoriza:
- A potência instantânea consumida pelos diferentes equipamentos
- A produção disponível da instalação solar
- A capacidade e potência disponíveis da bateria
Com base nestes dados, decide quando e como alimentar cada carga.
Exemplo: Equipamentos de elevado consumo, como máquinas de lavar loiça ou carregadores de veículos elétricos, devem funcionar preferencialmente durante o dia, quando existe excedente de produção fotovoltaica.
2. Injeção na rede
Quando a bateria está cheia e o consumo interno é totalmente coberto:
- O excedente é injetado na rede pública
- Em Portugal, no regime de autoconsumo com injeção (UPAC), essa energia pode ser remunerada de acordo com o contrato com o comercializador
- Contribui‑se para uma rede elétrica mais sustentável, com maior quota de energia renovável
3. Gestão da bateria
O EMS decide quando a bateria deve:
- Ser carregada (quando existe excedente solar)
- Ser descarregada (quando o consumo é superior à produção)
- Ser preservada (por exemplo, quando a eletricidade da rede é temporariamente mais barata do que o benefício de descarregar a bateria)
Objetivo principal: Manter sempre uma margem de segurança de energia armazenada, maximizando ao mesmo tempo a vida útil da bateria.
4. Integração com Smart Home
Um bom EMS:
- Integra‑se com sistemas de domótica e contadores inteligentes
- Reconhece o perfil de consumo dos vários equipamentos
- Consegue ligar e desligar cargas de forma otimizada (por exemplo, termoacumuladores, bombas de calor, carregadores de VE)
- Ajusta continuamente a estratégia de operação em função de preços de energia, previsões solares e hábitos de consumo
Vantagens de um EMS
Um sistema de gestão de energia bem configurado traz benefícios mensuráveis para a exploração da instalação:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Maior taxa de autoconsumo | Utilização de uma maior fração da produção solar na própria habitação |
| Redução da fatura elétrica | Menor energia comprada à rede |
| Vida útil superior da bateria | Ciclos de carga/descarga otimizados e limitação de profundidades de descarga extremas |
| Mais conforto | Automatização de equipamentos e menos intervenção manual |
| Transparência | Visualização clara de produção, consumo, armazenamento e injeção na rede |
Que topologia para que situação?
Acoplagem em AC recomendada quando:
- Existem instalações fotovoltaicas já em serviço sem armazenamento e pretende‑se adicionar uma bateria
- É desejada máxima flexibilidade na escolha ou substituição de componentes
- Já existem equipamentos de diferentes fabricantes e não se pretende uniformizar a marca
- A bateria tem de ser instalada longe do inversor (por exemplo, em edifícios anexos ou caves afastadas)
Acoplagem em DC recomendada quando:
- Se trata de instalações novas em que o armazenamento é previsto desde o início
- A máxima eficiência energética é uma prioridade
- Se prefere uma solução “chave na mão” de um único fabricante, com todos os componentes certificados em conjunto
- É possível garantir percursos DC curtos entre módulos, inversor e bateria
Inversor híbrido recomendado quando:
- Se planeiam novas instalações de pequena ou grande dimensão
- Se pretende uma instalação simples e limpa, com menos equipamentos na parede
- Se procura o melhor compromisso entre eficiência, custo e flexibilidade
- Se valoriza uma solução preparada para o futuro, facilmente integrável com baterias, carregadores de VE e sistemas de gestão inteligente
Conclusão
Síntese: A escolha da topologia de sistema influencia de forma significativa a eficiência (diferenças de 5–10% no rendimento “round‑trip”), a flexibilidade para alterações futuras, os custos globais e o esforço de instalação. Para a maioria das novas instalações fotovoltaicas em Portugal, um inversor híbrido com possibilidade de ligação de baterias é hoje a solução mais equilibrada, combinando eficiência elevada com uma instalação relativamente simples. Em projetos de reabilitação de sistemas existentes, a acoplagem em AC continua muitas vezes a ser o caminho mais prático para integrar armazenamento sem substituir o inversor atual.
Todas as partes desta série
- Das ancas de rã às baterias: como funciona um sistema de armazenamento de energia? – Fundamentos
- Lítio vs. chumbo: que bateria para a instalação solar? – Comparação tecnológica
- Eletrónica de potência: inversores e conversores DC‑DC – Conversão de energia
- O “canivete suíço”: inversor híbrido – Tudo num só equipamento
- AC ou DC? Topologias de sistema para instalações solares – Está aqui
Para saber mais
Compreender as instalações solares: Do fotão ao volt: como funciona uma célula solar?, Configuração de uma instalação FV, AC/DC em inversores, Baterias de armazenamento explicadas, Glossário de indicadores
Bombas de calor: Como funciona uma bomba de calor?, Tipos de bombas de calor em comparação
Baterias de armazenamento: Tecnologias de baterias em comparação, Powerstations explicadas, Análise de mercado 2025