Eletrónica de potência: inversores e conversores DC-DC
Introdução: O desafio da conversão de corrente
Os módulos solares estão montados, a bateria está pronta a funcionar e o sol brilha. A base para um sistema solar está criada. Falta, porém, um componente essencial: o inversor e as suas múltiplas funções.
O desafio nos sistemas solares:
- As células solares geram corrente contínua (DC)
- Os equipamentos domésticos necessitam de corrente alternada (AC)
- As baterias voltam a armazenar corrente contínua (DC)
Para resolver isto recorre‑se à eletrónica de potência. Neste artigo fica a saber como funcionam os diferentes componentes.
Visão geral: componentes de eletrónica de potência
Tanto na tecnologia solar como em praticamente todos os equipamentos modernos, nada funciona sem eletrónica de potência. Em sistemas solares e baterias utilizam‑se vários componentes, cada um com tarefas específicas na conversão de energia elétrica:
| Componente | Função |
|---|---|
| Inversor | DC → AC (corrente contínua para alternada) |
| Retificador | AC → DC (corrente alternada para contínua) |
| Elevador de tensão (boost) | Baixa tensão DC → Alta tensão DC |
| Redutor de tensão (buck) | Alta tensão DC → Baixa tensão DC |
| BMS | Sistema de gestão de baterias (Battery Management System) |
Unidirecional e bidirecional
Estes componentes podem ser unidirecionais (num só sentido) ou bidirecionais (em ambos os sentidos):
- Unidirecional: Apenas, por exemplo, de corrente contínua para alternada
- Bidirecional: Ambos os sentidos possíveis (fundamental para sistemas de armazenamento em bateria!)
O inversor: o coração do sistema solar
Os inversores convertem a corrente contínua gerada pelos módulos solares em corrente alternada. Isto é feito através de interruptores eletrónicos de potência, os chamados semicondutores de potência ou chaves de potência.
Princípio de funcionamento: o “picotar” da corrente
- A corrente contínua é ligada e desligada muito rapidamente
- Através de tempos de condução diferentes cria‑se um padrão
- A partir dos valores médios destes “pedaços de corrente contínua” gera‑se uma forma de onda alternada
- A frequência resultante é, em Portugal e na Europa, de 50 Hz
O resultado é uma corrente alternada compatível com a rede, adequada para todas as aplicações domésticas.
Funções importantes do inversor
Para além da simples conversão de corrente, os inversores modernos assumem outras funções essenciais para o funcionamento seguro e eficiente do sistema solar:
| Função | Descrição |
|---|---|
| Sincronização com a rede | Ajusta frequência, fase e tensão à rede pública |
| Proteção anti‑ilha | Desliga em caso de falha de rede (proteção para pessoal de manutenção) |
| Limitação de potência | Limitação por software (por ex. para cumprir requisitos da rede) |
| Monitorização | Supervisão, registo de dados e diagnóstico de avarias |
Nota para Portugal:
A ligação de inversores à rede pública deve cumprir o Regulamento de Acesso às Redes e às Interligações (RARI) e as regras técnicas da E‑REDES ou do operador de rede local, incluindo requisitos de proteção anti‑ilha, qualidade de energia e injeção máxima de potência.
Rendimento
Os inversores modernos atingem 96–98% de rendimento. As perdas resultam de:
- Perdas de comutação nos semicondutores
- Consumo próprio da eletrónica de comando
- Desenvolvimento de calor e perdas nos componentes passivos
O retificador: o inverso do inversor
Um retificador é, em termos de função, o inverso de um inversor: converte corrente alternada em corrente contínua.
Princípio de funcionamento
Na retificação, a forma de onda da corrente alternada é parcialmente “cortada”:
- Aproveitam‑se apenas os “picos” positivos da corrente alternada
- O valor médio destes picos resulta numa corrente contínua aproximadamente constante
- Comutação em alta frequência e filtragem adicional suavizam o resultado
Aplicação em sistemas solares
Os retificadores são necessários quando:
- Uma bateria ligada ao lado AC é carregada a partir da rede
- Se pretende armazenar temporariamente excedentes de energia da rede em baterias
Conversores DC-DC: ajustar a tensão
Os conversores DC-DC (conversores de corrente contínua) alteram o nível de tensão da corrente contínua, sem a transformar em corrente alternada.
Elevador de tensão (Boost Converter)
Converte baixa tensão em alta tensão.
Constituição típica:
- Fonte de baixa tensão
- Bobina (indutor)
- Diodo
- Chave de potência
- Condensador
Princípio de funcionamento:
- Chave fechada: A corrente flui através da bobina, formando‑se um campo magnético
- Chave abre: O campo magnético colapsa e gera uma tensão adicional
- Condensador carrega: A tensão aumentada é armazenada no condensador
Este processo repete‑se a frequência muito elevada, resultando numa tensão de saída estável.
Redutor de tensão (Buck Converter)
Converte alta tensão em baixa tensão.
Princípio de funcionamento:
- Chave fechada: A corrente flui para a bobina e para o condensador de saída
- Chave abre: O campo magnético na bobina colapsa, a polaridade muda e a energia é libertada para a carga
- Carga alternada: Através da comutação rápida e da “inércia” da bobina obtém‑se uma tensão média mais baixa e estabilizada
Conversor DC-DC bidirecional (Buck‑Boost)
Combina ambas as funções – pode elevar e reduzir a tensão. É particularmente importante para:
- Carregamento e descarga de baterias em diferentes estados de carga
- Adaptação a tensões variáveis dos módulos solares
Compreender os blocos de construção
Para melhor compreensão, seguem‑se os principais componentes utilizados nestes conversores.
Bobina (indutor)
Um condutor elétrico enrolado que:
- Ao passar corrente cria um campo magnético
- Quando a corrente é interrompida, mantém o fluxo de corrente por um curto período
Analogia: Como uma roda de água pesada que continua a girar algum tempo depois de se fechar a torneira.
Diodo
Permite a passagem de corrente apenas num sentido. Funciona como uma válvula de retenção num sistema hidráulico.
Condensador
Armazena energia sob a forma de campo elétrico. É constituído por duas placas metálicas separadas por um isolante. Serve como armazenamento intermédio para estabilizar a tensão.
Chave de potência
Interruptores eletrónicos baseados em semicondutores (por ex. MOSFET, IGBT):
- Elevadíssima velocidade de comutação
- Dimensões reduzidas
- Comandados por sinais de baixa potência provenientes da eletrónica de controlo
MPPT: potência máxima do sistema solar
O Maximum Power Point Tracker (MPPT) está frequentemente integrado no inversor. A sua função é garantir que, independentemente do tempo ou da carga, o sistema solar opere sempre no ponto de potência máxima.
Porque é necessário?
A potência elétrica é: P = U × I (tensão × corrente)
Cada módulo solar tem uma curva característica própria, que varia com:
- Sombreamento
- Temperatura das células
- Variações da radiação solar
Existe um ponto ótimo nesta curva – o ponto de potência máxima (Maximum Power Point) – em que o produto de tensão e corrente é máximo. O MPPT procura continuamente esse ponto.
O algoritmo “Perturb and Observe”
- A tensão de operação é ligeiramente aumentada ou reduzida (perturbação)
- Mede‑se a alteração da potência resultante (observação)
- A potência aumentou? → Continua‑se a variar na mesma direção
- A potência diminuiu? → Inverte‑se a direção da variação
Desta forma, o MPPT acompanha continuamente o ponto de potência máxima, mesmo com condições de radiação variáveis.
Sistema de gestão de baterias (BMS)
Os sistemas de armazenamento em bateria modernos integram um sistema inteligente de controlo e monitorização, o BMS, para garantir um funcionamento seguro.
Tarefas principais do BMS
O BMS desempenha um conjunto de funções indispensáveis para a segurança e longevidade da bateria:
| Tarefa | Descrição |
|---|---|
| Monitorização | Tensão, corrente e temperatura de cada célula |
| Equilíbrio de células (cell balancing) | Garante que todas as células têm níveis de carga semelhantes |
| Avaliação de estado | Cálculo de SoC, SoH, SoP |
| Proteção | Contra sobrecarga, sobredescarga, sobreaquecimento e curto‑circuito |
| Comunicação | Envio de dados para inversor, sistema de gestão de energia, etc. |
Principais parâmetros de bateria
O BMS monitoriza vários parâmetros que indicam o estado atual da bateria. Estas abreviaturas normalizadas surgem frequentemente em documentação técnica:
| Abreviatura | Significado | Pergunta associada |
|---|---|---|
| SoC | State of Charge | Quão carregada está a bateria? |
| SoH | State of Health | Em que estado de saúde está a bateria? |
| SoP | State of Power | Quanta potência pode fornecer neste momento? |
| SoS | State of Safety | Quão próxima está dos limites de segurança? |
| SoF | State of Function | Em que medida a bateria ainda cumpre as suas funções? |
O BMS acompanha estes valores em permanência e decide sobre medidas de proteção ou limitação de funcionamento.
Enquadramento normativo e regulamentar em Portugal
Embora os princípios de eletrónica de potência sejam universais, o dimensionamento e a integração de inversores, conversores e baterias em edifícios em Portugal devem respeitar normas e regulamentos nacionais e europeus.
Normas técnicas relevantes
-
Cálculo de cargas térmicas e desempenho energético de edifícios
Em vez de normas DIN alemãs, em Portugal aplicam‑se:- EN 12831 (cálculo de carga térmica de aquecimento) e normas associadas, utilizadas no âmbito do Sistema de Certificação Energética dos Edifícios (SCE)
- EN ISO 6946, transposta como NP EN ISO 6946, para cálculo de coeficientes de transmissão térmica (valores U) de elementos da envolvente
-
Bombas de calor e sistemas de climatização
O desempenho de bombas de calor e equipamentos HVAC é avaliado segundo:- EN 14511, EN 14825 e normas relacionadas, adotadas como normas portuguesas (NP EN …), em vez das diretrizes VDI alemãs
-
Sistemas fotovoltaicos e inversores
Para projeto e segurança de instalações fotovoltaicas e da eletrónica de potência associada aplicam‑se, entre outras:- NP EN 62446 (requisitos de ensaio e documentação de sistemas FV ligados à rede)
- NP EN 62109 (segurança de conversores de potência para uso fotovoltaico)
- Regras técnicas dos operadores de rede (por ex. E‑REDES) para ligação de micro e miniprodução.
Regulamentação energética dos edifícios
Em Portugal, o desempenho energético dos edifícios e a integração de sistemas solares e de armazenamento são enquadrados por:
- Sistema de Certificação Energética dos Edifícios (SCE), gerido pela ADENE
- Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios de Habitação (REH) e Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios de Comércio e Serviços (RECS)
- Transposição da Diretiva Europeia de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), que estabelece requisitos para edifícios novos de quase zero energia (nZEB) e incentiva a integração de renováveis (solar térmico, fotovoltaico, bombas de calor, etc.)
Na prática:
Ao planear um sistema solar com inversor e baterias num edifício novo ou sujeito a grande reabilitação, o projetista deve articular o dimensionamento elétrico (inversor, conversores, cablagem) com os requisitos do SCE e do REH/RECS, de forma a otimizar a classe energética do edifício.
Certificação energética e rotulagem
-
Certificado Energético de Edifícios
- Obrigatório para edifícios novos, grandes renovações e na venda ou arrendamento de imóveis
- Emite uma classe energética de A+ a F, considerando isolamento, sistemas de climatização, produção de AQS e contributo de energias renováveis (incluindo fotovoltaico e baterias, quando relevantes)
-
Rótulos de eficiência energética de equipamentos
- Inversores, bombas de calor, aparelhos de ar condicionado e outros equipamentos seguem a rotulagem energética da UE, com classes de A a G
- Para sistemas combinados (por ex. bomba de calor + fotovoltaico + armazenamento), o desempenho global pode ser considerado na certificação energética do edifício
Incentivos e apoios em Portugal para sistemas solares e eficiência
Ao contrário da Alemanha, onde existem programas como BAFA ou KfW, em Portugal os apoios são geridos sobretudo a nível nacional através de fundos europeus e programas específicos.
Programas de apoio relevantes (situação recente)
Atenção: Os programas são periódicos e sujeitos a avisos de abertura. É essencial verificar sempre a informação atualizada em sites oficiais (ADENE, DGEG, Fundo Ambiental, IAPMEI, etc.).
-
Fundo Ambiental – Programas de Eficiência Energética em Edifícios Residenciais
- Ex.: “Edifícios Mais Sustentáveis” (várias fases)
- Tipicamente apoia:
- Instalação de painéis solares fotovoltaicos e sistemas de armazenamento em bateria
- Substituição de janelas, reforço de isolamento térmico
- Instalação de bombas de calor e outros sistemas de climatização eficientes
- Apoios frequentemente na ordem de até 70–85% do investimento elegível, com tetos máximos por medida (valores exatos variam por fase do programa)
-
Programas financiados pelo PRR (Plano de Recuperação e Resiliência)
- Linhas para eficiência energética em edifícios de serviços e indústria, incluindo:
- Sistemas fotovoltaicos para autoconsumo
- Otimização de sistemas HVAC e gestão de energia
- Integração de sistemas de monitorização (onde se enquadra a eletrónica de potência e controlo)
-
Apoios a Autoconsumo Renovável (UPAC)
- A instalação de Unidades de Produção para Autoconsumo (UPAC) com inversores ligados à rede é regulada pela DGEG
- Em determinados períodos existem linhas de apoio específicas (por ex. para condomínios, PME ou agricultura), que podem incluir comparticipação na instalação de inversores, baterias e sistemas de gestão de energia
-
Benefícios fiscais pontuais
- Em alguns anos, despesas com energias renováveis em habitação própria permanente podem ser parcialmente dedutíveis em sede de IRS, dentro de limites definidos
- É necessário confirmar anualmente no Orçamento do Estado e na legislação fiscal em vigor
Em resumo para o leitor em Portugal:
Ao planear um sistema fotovoltaico com inversor, conversores DC-DC e baterias, vale a pena:
- Verificar programas ativos no Fundo Ambiental e no PRR
- Confirmar com a DGEG e o instalador se a UPAC pode beneficiar de apoios específicos
- Articular o projeto com um perito qualificado do SCE para maximizar a classe energética do edifício.
Conclusão
Ideia principal: A eletrónica de potência é o elo de ligação entre módulos solares, bateria e rede da habitação. Os inversores convertem corrente contínua em alternada, os retificadores fazem o inverso. Os conversores DC-DC ajustam os níveis de tensão, o MPPT otimiza o rendimento dos módulos e o BMS protege e gere a bateria. Sem estes componentes, não seria possível um sistema solar moderno, eficiente e compatível com as exigências regulamentares em Portugal.
O que acontece quando todas estas funções são reunidas num único equipamento? Saiba mais no artigo O tudo‑em‑um: inversor híbrido.
Série completa de artigos “Armazenamento de energia para sistemas solares”
- Das pernas de rã às baterias: como funciona um sistema de armazenamento de energia? – Fundamentos
- Lítio vs. chumbo: que bateria escolher para o sistema solar? – Comparação tecnológica
- Eletrónica de potência: inversores e conversores DC-DC – Está aqui
- O tudo‑em‑um: inversor híbrido – Tudo num só equipamento
- AC ou DC? Topologias de sistema para instalações solares – Conceitos de configuração de sistemas
Fontes
- Peter Hofmann: Hybridfahrzeuge (Springer Vienna, 2010)
- SMA: conhecimentos básicos sobre inversores solares
- HTW Berlin: Eficiência de inversores híbridos
- Elektronik-Kompendium: fundamentos