Baterias de armazenamento: A ajuda nos dias de mau tempo
Introdução: O tampão de energia da sua casa
Os sistemas solares fotovoltaicos são, a par das turbinas eólicas, o símbolo da produção de energia sustentável. São compactos, silenciosos, potentes, com baixas emissões e muito versáteis. Têm, no entanto, uma grande desvantagem: a dependência das condições meteorológicas. É precisamente em dias de mau tempo que se percebe o valor de uma bateria de armazenamento como apoio fiável.
Quando o sol está encoberto, os dias são curtos ou a neve cobre os módulos, é gerada pouca ou nenhuma eletricidade solar utilizável. Graças à tecnologia de baterias, existe hoje uma solução prática: com baterias modernas é possível ultrapassar estes períodos.
Em Portugal, a integração de baterias em sistemas fotovoltaicos em edifícios está alinhada com o quadro regulamentar do Sistema de Certificação Energética dos Edifícios (SCE), gerido pela ADENE, e com os requisitos de desempenho energético definidos no Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios de Habitação (REH) e dos Edifícios de Comércio e Serviços (RECS), aprovados pelo Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020.
A bateria no dia a dia: Um dia típico
O esquema clássico de um sistema residencial mostra a interação entre hora do dia, produção solar e consumo de energia num agregado familiar típico.
Manhã (6–9 horas)
- Radiação solar: Baixa (sol baixo no horizonte)
- Produção elétrica: Reduzida
- Consumo: Moderado (pequeno-almoço, AQS)
- Bateria: Começa a descarregar ou há recurso à rede
Meio da manhã até ao início da tarde (9–14 horas)
- Radiação solar: Alta até ao máximo
- Produção elétrica: Próxima do máximo (sol mais alto)
- Consumo: Baixo (casa vazia, trabalho/escola)
- Bateria: Carrega – armazena o excedente de energia
Tarde e noite (15–22 horas)
- Radiação solar: Decrescente até zero
- Produção elétrica: Diminui continuamente
- Consumo: Elevado (cozinhar, entretenimento, aquecimento/arrefecimento)
- Bateria: Descarrega e alimenta a casa
A realidade: Nem todos os dias são ideais
O exemplo anterior representa um dia “perfeito”. Na prática:
- Cada família tem hábitos diferentes
- O tempo é variável e imprevisível
- Há dias em que a bateria não carrega totalmente
- E outros em que falta consumo para a descarregar de forma ideal
Por isso, recorre‑se a eletrónica de medição e gestão inteligente. Um software de controlo gere a eletrónica de potência e utiliza dados do contador de energia (ou do sistema de gestão de energia da casa) para operar a bateria da forma mais eficiente possível.
Porque instalar um sistema de armazenamento?
Maximizar o autoconsumo
Sem bateria: o excedente de energia solar é injetado na rede. Em Portugal, para pequenos produtores em regime de UPAC – Unidade de Produção para Autoconsumo, a remuneração pela injeção é tipicamente baixa e depende de contratos com o comercializador.
Com bateria: a energia própria é utilizada à noite, reduzindo a eletricidade comprada à rede (tarifas domésticas em Portugal situam‑se frequentemente na ordem dos 0,20–0,30 €/kWh, dependendo do comercializador e do tipo de tarifa).
Poupança indicativa por kWh de autoconsumo adicional: cerca de 0,15–0,25 €, em vez de vender barato e comprar caro.
Aumentar a autonomia
| Sistema | Grau de autonomia típico |
|---|---|
| Apenas PV, sem bateria | 25–35% |
| PV + bateria | 60–80% |
| PV + bateria de grande capacidade | até cerca de 90% |
O grau de autonomia indica que percentagem do consumo anual é coberta pela própria produção. Em Portugal, este indicador é relevante para a avaliação energética do edifício no âmbito do Certificado Energético (SCE), embora não exista ainda uma métrica única de “autossuficiência” regulamentar.
Reduzir a dependência da rede
Uma bateria pode, consoante o sistema, funcionar como fonte de emergência em caso de falha de rede. Para isso, o inversor e a instalação têm de ser preparados para funcionamento em modo “backup” ou “off‑grid”, respeitando as regras técnicas da Direção‑Geral de Energia e Geologia (DGEG) e do operador de rede (E‑REDES).
Dimensionamento da bateria: Que capacidade faz sentido?
A dimensão adequada do sistema de armazenamento depende de vários parâmetros.
Perguntas importantes antes de dimensionar
- Quanta energia produz, em média, o sistema fotovoltaico?
- Qual é a potência de pico instalada (kWp)?
- Que grau de autonomia pretende atingir?
- Qual é o consumo anual de eletricidade da habitação?
Regras práticas de dimensionamento
Em função da potência de pico (kWp):
Por cada kWp instalado, é recomendável prever cerca de 0,9 a 1,6 kWh de capacidade útil de armazenamento.
| Potência do sistema | Bateria recomendada |
|---|---|
| 5 kWp | 4,5 – 8 kWh |
| 8 kWp | 7,2 – 12,8 kWh |
| 10 kWp | 9 – 16 kWh |
Em função do consumo anual:
A capacidade da bateria deve corresponder, de forma aproximada, a 60% do consumo elétrico diário.
| Consumo anual | Consumo diário | Bateria recomendada |
|---|---|---|
| 3.000 kWh | 8,2 kWh | ~5 kWh |
| 5.000 kWh | 13,7 kWh | ~8 kWh |
| 7.000 kWh | 19,2 kWh | ~12 kWh |
Estas orientações são compatíveis com as boas práticas de projeto em Portugal, embora não existam normas nacionais específicas para dimensionamento de baterias residenciais. O enquadramento técnico segue, em geral, as normas europeias aplicáveis (por exemplo, EN 62485, EN 62619 para segurança de baterias) e as regras de ligação à rede definidas pela DGEG.
Dica prática
Sobredimensionar raramente compensa:
- Uma bateria demasiado grande quase nunca carrega totalmente
- O investimento adicional demora muito tempo a amortizar
- Em muitos casos é preferível uma bateria ligeiramente mais pequena e utilizar a rede como “backup”
Compreender a C‑Rate
A C‑Rate (taxa C) descreve a relação entre a potência de carga/descarga e a capacidade de armazenamento:
C‑Rate = Potência (kW) / Capacidade (kWh)
Exemplo de cálculo
Uma bateria com:
- Potência de carga/descarga: 10 kW
- Capacidade: 20 kWh
Tem uma C‑Rate de: 10 kW / 20 kWh = 0,5C
Isto significa que a bateria carrega ou descarrega totalmente em 2 horas.
C‑Rate em resumo
| C‑Rate | Tempo de carga/descarga | Utilização típica |
|---|---|---|
| 0,25C | 4 horas | Carga lenta, mais conservadora |
| 0,5C | 2 horas | Padrão em sistemas residenciais |
| 1C | 1 hora | Carga rápida |
| 2C | 30 minutos | Armazenamento de alta potência |
C‑Rates mais elevadas permitem carregar rapidamente, mas solicitam mais a bateria e podem reduzir a sua vida útil.
Principais indicadores de uma bateria
Capacidade (kWh)
Quantidade de energia que o sistema consegue armazenar e disponibilizar.
- Capacidade bruta: Capacidade física total
- Capacidade líquida: Capacidade efetivamente utilizável (normalmente 90–95% da bruta)
Potência de carga e descarga (kW)
Velocidade com que a bateria consegue receber ou fornecer energia.
- Importante para cobrir picos de consumo (por exemplo, ligar o fogão elétrico ou uma bomba de calor)
- Em sistemas residenciais, são comuns valores entre 3 e 10 kW
Rendimento (%)
Percentagem da energia armazenada que pode ser recuperada.
- Baterias de iões de lítio: tipicamente 90–95%
- As perdas resultam de conversões eletrónicas e calor
Vida útil em ciclos
Número de ciclos completos de carga/descarga que a bateria suporta.
- Valores típicos: 5.000–10.000 ciclos
- Com um ciclo por dia: cerca de 13–27 anos de funcionamento teórico
Na prática, a vida útil é também influenciada pela temperatura ambiente, profundidade de descarga e qualidade do sistema de gestão da bateria (BMS).
Profundidade de descarga (DoD – Depth of Discharge)
Percentagem da capacidade que pode ser descarregada.
- Iões de lítio: 80–100% de DoD são tecnicamente possíveis
- Maior DoD = mais capacidade utilizável, mas também maior desgaste
Tecnologias de armazenamento em comparação
Iões de lítio (padrão atual)
- Vantagens: Elevada densidade energética, longa vida útil, bom rendimento
- Desvantagens: Custo por kWh ainda relativamente elevado, sensibilidade à temperatura
- Aplicação: Padrão em sistemas residenciais de armazenamento em Portugal
Lítio‑ferro‑fosfato (LFP)
- Vantagens: Muito seguro, vida útil longa, robusto
- Desvantagens: Densidade energética ligeiramente inferior
- Aplicação: Cada vez mais utilizado em sistemas domésticos, incluindo soluções comercializadas no mercado português
Chumbo‑ácido
- Vantagens: Tecnologia madura, custo inicial mais baixo
- Desvantagens: Menor vida útil, menos ciclos, peso elevado, manutenção mais exigente
- Aplicação: Ainda presente em sistemas antigos ou aplicações off‑grid simples
Baterias de sal (sal fundido / sal‑água)
- Vantagens: Mais amigas do ambiente, não inflamáveis
- Desvantagens: Densidade energética baixa, peso elevado, gama de produtos ainda limitada
- Aplicação: Aplicações especiais, nichos de mercado
Enquadramento português: normas, certificação e incentivos
Normas e desempenho energético dos edifícios
Na Alemanha, o desempenho energético e os sistemas técnicos são muitas vezes referidos com normas DIN e diretivas VDI. Em Portugal, o enquadramento é diferente, mas os objetivos são semelhantes:
-
Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios de Habitação (REH) e RECS para comércio e serviços, ambos no âmbito do Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020, definem requisitos mínimos de desempenho energético, incluindo:
- Envolvente térmica (valores máximos de coeficiente de transmissão térmica U, em linha com a EN ISO 6946)
- Eficiência dos sistemas técnicos (aquecimento, arrefecimento, AQS, ventilação)
- Integração de energias renováveis (solar térmico, fotovoltaico, bombas de calor)
-
O cálculo do desempenho energético global e das necessidades de aquecimento/arrefecimento baseia‑se em normas europeias (por exemplo, EN ISO 52016 para cargas térmicas e necessidades de energia), adaptadas ao contexto nacional através de regulamentos e manuais técnicos do LNEC e da ADENE.
-
Para bombas de calor e outros sistemas técnicos, aplicam‑se as normas europeias de produto e desempenho, como EN 14511 e EN 14825, em vez de diretivas VDI específicas.
Certificação energética e rotulagem
Em Portugal, o sistema de certificação e rotulagem energética é estruturado da seguinte forma:
-
Certificado Energético de Edifícios (SCE):
- Obrigatório para novos edifícios, grandes reabilitações e para venda/arrendamento de imóveis.
- Emite uma classe energética de A+ a F, considerando isolamento, sistemas técnicos, energias renováveis (incluindo PV e, indiretamente, baterias através do aumento de autoconsumo).
- Gerido pela ADENE – Agência para a Energia.
-
Etiquetas energéticas de equipamentos:
- Bombas de calor, aparelhos de ar condicionado, frigoríficos, máquinas de lavar, etc., seguem a rotulagem energética da UE (escala A a G) ao abrigo dos regulamentos europeus de ecodesign e etiquetagem.
A instalação de um sistema fotovoltaico com bateria pode melhorar a classe energética do edifício, sobretudo quando contribui para reduzir o consumo de energia primária da rede.
Incentivos e apoios financeiros em Portugal
Ao contrário da Alemanha, onde existem programas como BAFA ou KfW, em Portugal os apoios são estruturados de forma diferente. À data, os principais instrumentos (sujeitos a alterações e a novas fases de candidatura) incluem:
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Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis (gerido pelo Fundo Ambiental):
- Apoia medidas de eficiência energética e renováveis em habitações existentes, incluindo:
- Instalação de sistemas solares fotovoltaicos para autoconsumo
- Baterias de armazenamento associadas ao PV
- Isolamento térmico, substituição de janelas, bombas de calor, etc.
- Tipicamente comparticipa uma percentagem do investimento elegível (por exemplo, 70–85%), com tetos máximos por medida (valores de referência em edições anteriores: alguns milhares de euros por habitação, com limites específicos para PV e baterias).
- Elegível para proprietários de habitações permanentes, com requisitos sobre a situação fiscal e a conformidade urbanística do imóvel.
-
Incentivos fiscais:
- Possibilidade de dedução de parte das despesas com eficiência energética e renováveis em sede de IRS, em determinadas condições e limites anuais (ver legislação fiscal em vigor).
- Taxas de IVA reduzidas podem aplicar‑se a algumas intervenções em edifícios de habitação permanente, quando integradas em obras de reabilitação.
-
Programas regionais e municipais:
- Alguns municípios e programas regionais (por exemplo, no âmbito do Portugal 2030 ou de fundos ambientais locais) podem lançar apoios específicos para instalações solares e reabilitação energética.
Para sistemas de armazenamento, é importante verificar, em cada fase de candidatura, se as baterias estão explicitamente incluídas como despesa elegível e quais os limites de apoio.
Conclusão
Em resumo: Uma bateria de armazenamento torna um sistema fotovoltaico muito mais completo. Permite colmatar o desfasamento entre produção (durante o dia) e consumo (sobretudo à noite), aumenta o autoconsumo e melhora a rentabilidade do investimento, especialmente num contexto de tarifas de eletricidade elevadas.
No dimensionamento, a regra é não exagerar na capacidade. As regras práticas (0,9–1,6 kWh por kWp instalado ou cerca de 60% do consumo diário) são uma boa referência para habitações em Portugal, devendo ser ajustadas ao perfil de consumo real e às condições locais.
Para terminar: no último artigo desta série, Indicadores de uma instalação solar: O glossário, encontra todos os indicadores importantes, de kW a kWp, do rendimento à C‑Rate, apresentados de forma clara.