Indicadores de uma instalação solar: o glossário
Introdução: Sem números não há projeto
Tal como em todos os sistemas técnicos, os indicadores são essenciais para escolher os componentes adequados e adaptar o sistema às necessidades pretendidas. Com os indicadores certos, qualquer instalação solar pode ser dimensionada de forma otimizada.
Este artigo reúne todos os indicadores mais importantes – desde a potência ao rendimento, até aos parâmetros das baterias.
Potência e energia
Potência elétrica (kW)
Definição: Potência é trabalho por unidade de tempo – ou seja, a quantidade de energia que é convertida por segundo.
Em instalações solares: A potência elétrica é a quantidade de energia solar que pode ser convertida em energia elétrica por unidade de tempo.
Unidade: quilowatt (kW) = 1.000 watt
Exemplos:
- Pequeno inversor: 3 kW
- Instalação de média dimensão: 5–10 kW
- Bomba de calor: 3–12 kW
- Wallbox para veículo elétrico: 11–22 kW
Potência de pico (kWp)
Definição: A potência máxima possível de uma instalação solar em condições de ensaio normalizadas (STC – Standard Test Conditions):
- Irradiação: 1.000 W/m²
- Temperatura da célula: 25°C
- Massa de ar: AM 1,5
Significado: Quilowatt‑pico (kWp) é a unidade utilizada para comparar instalações solares. Uma instalação de 10 kWp pode fornecer, com sol ideal, no máximo 10 kW.
Na prática: Em Portugal, tal como noutros países europeus, a potência de pico é atingida apenas em poucas horas por ano (dias de verão muito limpos, sol ao meio‑dia).
Produção de energia (kWh)
Definição: Quantidade de energia efetivamente produzida ao longo de um determinado período.
Unidade: quilowatt‑hora (kWh) = 1 kW de potência durante 1 hora
Exemplos:
| Equipamento | Potência | Tempo de funcionamento | Consumo |
|---|---|---|---|
| Lâmpada LED | 10 W | 5 h | 0,05 kWh |
| Máquina de lavar roupa | 2.000 W | 1 h | 2 kWh |
| Carregamento de veículo elétrico | 11.000 W | 3 h | 33 kWh |
Produção anual: Em Portugal continental, uma instalação de 10 kWp produz, consoante a região e a orientação, tipicamente cerca de 1.300–1.700 kWh por kWp, ou seja, 13.000–17.000 kWh por ano (valores de referência usados em estudos da ADENE e da DGEG).
Rendimento (eficiência)
O que é o rendimento?
Definição: A relação entre a energia útil e a energia fornecida ao sistema.
Fórmula: η = Energia útil / Energia fornecida × 100%
Intuitivamente: Uma lâmpada incandescente converte apenas cerca de 5% da energia em luz – 95% perdem‑se sob a forma de calor. LEDs atingem 40–50%.
Rendimento dos módulos solares
| Tecnologia | Rendimento típico | Características |
|---|---|---|
| Monocristalino | 18–24% | Maior eficiência, aspeto escuro uniforme |
| Policristalino | 15–20% | Mais económico, estrutura azulada |
| Película fina | 8–15% | Flexível, mais tolerante a sombreamentos parciais |
| Perovskita (laboratório) | até 30% | Tecnologia emergente |
| Tandem (laboratório) | até 47% | Células de múltiplas junções |
Rendimento do inversor
Os inversores modernos atingem 96–98% de rendimento. As perdas resultam de:
- Perdas de comutação nos semicondutores
- Consumo próprio da eletrónica
- Desenvolvimento de calor
Rendimento europeu: Valor médio ponderado que considera o comportamento em carga parcial (mais relevante do que o rendimento máximo nominal).
Rendimento do sistema
O rendimento global de uma instalação fotovoltaica situa‑se tipicamente entre 80–90%. As perdas resultam de:
- Perdas nos cabos (1–2%)
- Inversor (2–4%)
- Sujidade (2–5%)
- Perdas por temperatura (5–10%)
- Sombreamento parcial (variável)
Indicadores das baterias
Capacidade (kWh)
Definição: Quantidade de energia que uma bateria pode armazenar e disponibilizar.
Distinção:
- Capacidade bruta: Capacidade física total
- Capacidade útil (líquida): Efetivamente utilizável (cerca de 90–95% da capacidade bruta em baterias de lítio para uso doméstico)
Valores típicos para baterias residenciais: 5–15 kWh
Potência de carga e descarga (kW)
Definição: Velocidade com que a bateria pode receber ou fornecer energia.
Significado: Determina se a bateria consegue compensar picos de carga (por exemplo, fogão elétrico, bomba de calor e máquina de secar a funcionar em simultâneo).
Valores típicos: 3–10 kW em sistemas residenciais
C‑rate (taxa C)
Definição: Relação entre a potência de carga/descarga e a capacidade da bateria.
Fórmula: C = Potência (kW) / Capacidade (kWh)
Exemplo:
- 10 kW de potência / 20 kWh de capacidade = 0,5C
- A 0,5C, a bateria carrega/descarga em 2 horas
| C‑rate | Tempo de carga/descarga | Significado |
|---|---|---|
| 0,2C | 5 horas | Carga suave |
| 0,5C | 2 horas | Típico em baterias residenciais |
| 1C | 1 hora | Carga rápida |
| 2C | 30 minutos | Alta potência |
Importante: C‑rates mais elevados solicitam mais a bateria e podem reduzir a sua vida útil.
Vida útil em ciclos
Definição: Número de ciclos completos de carga/descarga que uma bateria suporta até atingir uma capacidade residual definida (normalmente 80% da capacidade inicial).
Valores típicos:
- Chumbo‑ácido: 500–1.500 ciclos
- Iões de lítio: 5.000–10.000 ciclos
Conversão aproximada: Com um ciclo por dia = 13–27 anos de funcionamento.
Profundidade de descarga (DoD – Depth of Discharge)
Definição: Percentagem da capacidade que a bateria pode descarregar sem sofrer danos significativos.
Valores típicos:
- Chumbo‑ácido: recomendado cerca de 50% DoD
- Iões de lítio: 80–100% DoD possíveis (consoante a química e o sistema de gestão)
Significado: Maior DoD = mais capacidade utilizável, mas potencialmente maior desgaste ao longo do tempo.
Autonomia e autoconsumo
Grau de autonomia
Definição: Percentagem do consumo elétrico que é coberta pela própria instalação solar.
Fórmula: Autonomia = Consumo próprio / Consumo total × 100%
Valores típicos:
| Configuração | Grau de autonomia |
|---|---|
| Apenas PV | 25–35% |
| PV + pequena bateria | 50–65% |
| PV + bateria de grande capacidade | 70–85% |
| PV + bateria + gestão otimizada de consumos | 80–95% |
Taxa de autoconsumo
Definição: Percentagem da energia solar produzida que é consumida localmente (e não injetada na rede).
Fórmula: Autoconsumo = Consumo próprio / Produção total × 100%
Significado: Quanto maior a taxa de autoconsumo, mais interessante é a instalação do ponto de vista económico, porque a eletricidade evitada da rede é, em Portugal, significativamente mais cara do que a remuneração pela injeção (tarifas de venda à rede reguladas pela ERSE).
Indicadores económicos
Produção específica (kWh/kWp)
Definição: Produção anual dividida pela potência instalada.
Valores típicos em Portugal:
Consoante a região, orientação e inclinação, situam‑se geralmente entre 1.300–1.700 kWh/kWp (valores de referência usados em estudos nacionais de potencial solar).
Dependente de:
- Localização (Algarve e Alentejo > litoral Norte)
- Orientação (sul é ideal; sudeste/sudoeste ainda muito bom)
- Inclinação (cerca de 25–35° é favorável para produção anual)
- Sombreamento
Performance Ratio (PR)
Definição: Relação entre a produção real e a produção teoricamente possível com base na irradiação medida.
Valores típicos: 75–85%
Significado: Indica a qualidade global da instalação e da sua execução (perdas elétricas, dimensionamento, sombreamentos, etc.).
Custo nivelado de energia (LCOE)
Definição: Custo por quilowatt‑hora produzido ao longo de toda a vida útil da instalação.
Cálculo: Custos totais / Produção total (ao longo de 20+ anos)
Valores de referência (ordem de grandeza em 2025, semelhantes aos de outros países da UE):
- Instalações em telhado: cerca de 5–10 cêntimos/kWh
- Grandes centrais fotovoltaicas: cerca de 3–6 cêntimos/kWh
- Eletricidade da rede para consumidores domésticos em Portugal: tipicamente 20–30 cêntimos/kWh (dependendo do comercializador e da tarifa, valores regulados pela ERSE)
Visão geral: unidades em resumo
| Unidade | Nome | Significado |
|---|---|---|
| kW | quilowatt | Potência (trabalho por unidade de tempo) |
| kWh | quilowatt‑hora | Energia (1 kW durante 1 hora) |
| kWp | quilowatt‑pico | Potência máxima da PV (STC) |
| % (η) | rendimento | Energia útil / energia fornecida |
| C | C‑rate | Potência de carga/descarga / capacidade |
| % DoD | Depth of Discharge | Profundidade máxima de descarga |
Conclusão
Em resumo: Com estes indicadores é possível comparar instalações solares de diferentes dimensões, dimensionar o sistema de baterias adequado, calcular a viabilidade económica e avaliar a qualidade da instalação. Para o projeto, os indicadores mais importantes são kWp (dimensão da instalação), kWh de bateria (capacidade de armazenamento), grau de autonomia (dependência da rede) e taxa de autoconsumo (rentabilidade).
Esta série em resumo
- Do fotão ao volt: como funciona uma célula solar? – Fundamentos da fotovoltaica
- Constituição de uma instalação FV: do módulo à injeção na rede – Componentes e percurso da energia
- AC/DC na fotovoltaica: inversores e conversão de corrente – Eletrónica de potência
- Baterias de armazenamento: o apoio em dias sem sol – Armazenamento de energia
- Indicadores de uma instalação solar: o glossário – Está aqui
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