Os componentes: permutador de calor, compressor e válvula de expansão
Introdução: Os blocos de construção da bomba de calor
Uma bomba de calor é constituída por quatro componentes principais, que trabalham em ciclo:
- Evaporador (permutador de calor para captação de calor)
- Compressor (coração do sistema)
- Condensador (permutador de calor para cedência de calor)
- Válvula de expansão (redução de pressão)
A estes junta‑se o fluido frigorigéneo, que circula por todos os componentes. Neste artigo analisamos cada componente em detalhe.
Nota para Portugal:
O princípio de funcionamento descrito é válido para bombas de calor ar‑água, solo‑água ou água‑água utilizadas em edifícios em Portugal, quer em moradias unifamiliares, quer em edifícios de serviços, de acordo com o quadro regulamentar do SCE – Sistema de Certificação Energética dos Edifícios e com o REH – Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios de Habitação (Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020).
O permutador de calor: ceder e receber calor
Sem o permutador de calor, a climatização moderna (aquecimento e arrefecimento) seria praticamente impensável. Este componente cumpre a função central de captação e cedência de calor.
Princípio de funcionamento
Num permutador de calor, a energia térmica é transferida entre dois meios, sem que estes entrem em contacto direto.
Importante: O calor flui sempre do “mais quente” para o “mais frio” – é o segundo princípio da Termodinâmica em ação.
A transferência de calor ocorre principalmente por:
- Condução: transferência de calor através dos materiais
- Convecção: transporte de calor por meios em escoamento
Exemplos do dia a dia
Encontramos permutadores de calor em muitos equipamentos correntes:
| Equipamento | Captação de calor | Cedência de calor |
|---|---|---|
| Radiador de automóvel | Água de refrigeração quente | Ar que passa no radiador |
| Frigorífico | Interior do frigorífico | Parte traseira (grelha) |
| Bomba de calor | Ambiente (ar/solo/água) | Água de aquecimento |
Tipos de permutadores de calor
Permutador de tubos
Constituição:
- Um tubo com um fluido em circulação
- Um espaço envolvente com outro fluido
- O calor é transferido através da parede do tubo
Vantagens:
Os permutadores de tubos destacam‑se sobretudo pela simplicidade:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Construção simples | Poucos componentes |
| Robusto | Pouco sensível a variações de pressão |
| Fácil manutenção | Limpeza relativamente simples |
| Custo reduzido | Fabrico económico |
Desvantagens:
A simplicidade traz também algumas limitações:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Menor eficiência | Menor área de transferência |
| Maior necessidade de espaço | Requer mais volume de instalação |
Permutador de placas
Constituição:
- Várias placas com pequenos espaços intermédios
- Escoamento alternado do fluido quente e frio
- Escoamento em contracorrente para máxima eficiência
Vantagens:
A construção compacta oferece vantagens decisivas:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Elevada eficiência | Grande área de superfície |
| Compacto | Pouco espaço de instalação |
| Modular | Possibilidade de adicionar placas |
Desvantagens:
A maior complexidade também tem inconvenientes:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Custo mais elevado | Fabrico mais exigente |
| Sensível à pressão | Juntas mais críticas |
| Limpeza difícil | Muitos canais estreitos |
Utilização em bombas de calor
Nas bombas de calor, utilizam‑se diferentes tipos de permutadores consoante a posição no circuito:
| Posição | Designação | Tipo de permutador |
|---|---|---|
| Entrada | Evaporador | Tubo‑aleta ou placas |
| Saída | Condensador | Permutador de placas brasadas |
Normas técnicas em Portugal
O dimensionamento térmico dos elementos de permuta e o cálculo de coeficientes de transmissão de calor (valores U) seguem as normas europeias, nomeadamente:
- EN 12831 (cálculo de cargas térmicas de aquecimento), aplicada em Portugal no âmbito do REH/RECS;
- EN ISO 6946 (cálculo de coeficientes de transmissão térmica de elementos de construção).
Estas normas são referidas nos manuais de cálculo utilizados para o SCE e para o cumprimento do Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020.
O compressor: o coração do sistema
Este componente é responsável pela compressão do fluido frigorigéneo. Com a compressão, a temperatura sobe para um nível utilizável para aquecimento.
Princípio de funcionamento
- O fluido frigorigéneo gasoso é aspirado a partir do evaporador
- O compressor comprime mecanicamente o gás
- A pressão aumenta → a temperatura aumenta
- O gás quente é encaminhado para o condensador
O compressor é a “bomba” propriamente dita da bomba de calor.
Constituição
Um compressor é constituído por:
- Unidade motriz: normalmente um motor elétrico
- Zona de compressão: elementos móveis (espirais, pistões, roletes, etc.)
Tipos de compressor
Compressor scroll (padrão em bombas de calor)
Princípio de funcionamento:
- Duas espirais (scrolls)
- Uma fixa, outra móvel
- O movimento excêntrico comprime o gás progressivamente
Vantagens:
Os compressores scroll tornaram‑se padrão por boas razões:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Muito silencioso | Sem movimentos bruscos |
| Elevado rendimento | Compressão eficiente |
| Longa vida útil | Menor desgaste |
| Caudal estável | Funcionamento uniforme |
Compressor inverter (moderno)
Combina o compressor scroll com um inversor de frequência:
- A velocidade do motor é variável
- A potência adapta‑se à carga térmica
- Evita arranques/paragens frequentes → menos desgaste
Vantagens:
A velocidade variável traz vantagens importantes:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Eficiência energética | Só fornece a potência necessária |
| Baixo ruído | Sem picos de ruído de arranque |
| Maior durabilidade | Menores solicitações mecânicas |
| Controlo preciso | Temperatura mais estável |
Outros tipos de compressor
Existem ainda outras configurações de compressores para aplicações específicas:
| Tipo | Aplicação |
|---|---|
| Compressor alternativo (pistão) | Grandes instalações de frio |
| Compressor de rolo (rotativo) | Pequenos aparelhos de ar condicionado |
| Compressores centrífugos/turbo | Instalações industriais |
Normas e requisitos em Portugal
As bombas de calor comercializadas em Portugal devem cumprir as normas europeias de produto, como a EN 14511 (condições de ensaio e desempenho) e a EN 14825 (desempenho sazonal – SCOP/SEER).
Para efeitos de certificação energética no SCE, o desempenho declarado (COP, SCOP) é utilizado nos cálculos regulamentares do REH/RECS.
A válvula de expansão: o contraponto do compressor
A válvula de expansão é o contraponto do compressor. Regula o retorno do fluido frigorigéneo do condensador para o evaporador.
Princípio de funcionamento
Depois da cedência de calor no condensador, o fluido frigorigéneo mantém:
- Pressão elevada
- Temperatura elevada
A válvula de expansão:
- Reduz a pressão através de uma estrangulação controlada
- Com a queda de pressão, a temperatura desce
- O fluido frigorigéneo fica pronto para um novo ciclo no evaporador
Tipos de válvula
Válvulas de expansão não reguladas
- Construção simples
- Abertura fixa
- Utilizadas em sistemas simples (por exemplo, pequenos frigoríficos)
Válvulas de expansão reguladas
- Ajustam automaticamente o caudal
- Reagem à temperatura e à pressão
- Padrão em bombas de calor modernas
Graças à regulação, é possível ajustar com precisão a potência de aquecimento.
O fluido frigorigéneo: o “líquido mágico”
Sem as propriedades específicas dos fluidos frigorigéneos, as bombas de calor não poderiam funcionar.
O que torna um fluido frigorigéneo especial?
Os fluidos frigorigéneos têm propriedades físicas que os tornam ideais para este tipo de aplicação:
| Propriedade | Importância |
|---|---|
| Baixo ponto de ebulição | Evapora a temperaturas relativamente baixas |
| Elevada capacidade calorífica | Consegue absorver muita energia térmica |
| Mudança de fase | Alterna de forma eficiente entre líquido e gás |
Fluido frigorigéneo vs. fluido de arrefecimento
Atenção: Estes termos são muitas vezes confundidos, mas designam conceitos diferentes:
| Fluido frigorigéneo | Fluido de arrefecimento | |
|---|---|---|
| Estado físico | Alterna (líquido ↔ gasoso) | Mantém‑se praticamente constante |
| Transferência de calor | Através da mudança de fase | Através do escoamento |
| Aplicação típica | Bombas de calor, AVAC | Arrefecimento de motores, circuitos hidráulicos |
Fluidos frigorigéneos utilizados
Fluidos frigorigéneos naturais
Os fluidos naturais são, em geral, mais favoráveis ao ambiente, mas cada um tem características próprias:
| Designação | Características |
|---|---|
| Propano (R290) | Baixo impacto climático, inflamável |
| CO₂ (R744) | Não inflamável, pressões de funcionamento elevadas |
| Amónia (R717) | Muito eficiente, tóxica (uso sobretudo industrial) |
Fluidos frigorigéneos sintéticos
Os fluidos sintéticos estão a ser progressivamente substituídos por alternativas com menor impacto climático:
| Designação | Situação |
|---|---|
| R410A | Ainda presente em muitas instalações existentes, em fase de eliminação gradual na UE |
| R32 | Padrão atual em muitas bombas de calor residenciais |
| R1234yf | Fluido de nova geração com baixo GWP |
Fluidos frigorigéneos proibidos ou em eliminação
Por motivos ambientais e de segurança, foram ou estão a ser proibidos:
- CFC (por ex. R11) – destruição da camada de ozono
- HCFC (por ex. R22) – forte efeito de estufa e impacto na camada de ozono
- Diversos HFC com elevado GWP, progressivamente restringidos pelo Regulamento (UE) dos gases fluorados (F‑gases)
GWP (Global Warming Potential): indicador do potencial de aquecimento global de uma substância em comparação com o CO₂.
Contexto legal em Portugal
A utilização, recuperação e manuseamento de fluidos frigorigéneos em Portugal está sujeita ao Regulamento (UE) relativo a gases fluorados e à legislação nacional associada. As empresas e técnicos que intervêm em bombas de calor devem possuir certificação F‑gases válida.
A interação de todos os componentes
Evaporador (exterior)
│
│ Gás (frio)
↓
Compressor ←── Energia elétrica
│
│ Gás (quente, alta pressão)
↓
Condensador (interior)
│
│ Líquido (quente)
↓
Válvula de expansão
│
│ Líquido (frio, baixa pressão)
↓
Retorno ao evaporador
O fluxo de energia
- Calor do ambiente (gratuito) → evaporador
- Energia elétrica → compressor
- Calor útil → sistema de aquecimento (radiadores, piso radiante, ventiloconvetores)
O aspeto decisivo: por cada 1 kWh de eletricidade consumida, a bomba de calor pode fornecer 3 a 5 kWh de calor útil, dependendo das condições de funcionamento (COP/SCOP).
Desempenho e regulamentação em Portugal
- O desempenho sazonal (SCOP) das bombas de calor é considerado no cálculo do desempenho energético dos edifícios no âmbito do SCE, em conformidade com o Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020.
- As bombas de calor contribuem para o cumprimento dos requisitos mínimos de eficiência e para a quota de energias renováveis exigida em novos edifícios e grandes reabilitações.
- A instalação deve respeitar as boas práticas de projeto e execução previstas nas normas europeias de AVAC e nas regras técnicas aplicáveis (por exemplo, regras da APIRAC e boas práticas de projeto de sistemas de climatização).
Incentivos e enquadramento em Portugal
Embora este artigo seja focado na técnica, é relevante conhecer o enquadramento nacional para bombas de calor e eficiência energética:
-
Regulamentação energética de edifícios:
- Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020 – estabelece o regime de desempenho energético dos edifícios (REH/RECS) e o SCE – Sistema de Certificação Energética.
- Define requisitos mínimos de isolamento (valores U máximos para paredes, coberturas, pavimentos e vãos envidraçados) e de eficiência dos sistemas técnicos, incluindo bombas de calor.
-
Certificação energética (SCE):
- Todos os edifícios novos e os existentes sujeitos a transação ou arrendamento devem possuir Certificado Energético, emitido por perito qualificado da ADENE.
- A classe energética (A+, A, B, …, G) reflete o desempenho global do edifício, incluindo a eficiência da bomba de calor e dos restantes sistemas.
-
Rotulagem energética de equipamentos:
- As bombas de calor e equipamentos de climatização vendidos em Portugal devem apresentar a etiqueta energética da UE, com classes de eficiência (A+++ a G), valores de SCOP/SEER e níveis de ruído, conforme os regulamentos europeus de rotulagem.
-
Incentivos e apoios financeiros (programas recentes/típicos):
- Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis (gerido pelo Fundo Ambiental): apoios a particulares para substituição de sistemas de aquecimento ineficientes por bombas de calor, melhoria de isolamento térmico, janelas eficientes e instalação de sistemas solares térmicos e fotovoltaicos. Os apoios têm sido tipicamente de algumas centenas a alguns milhares de euros por habitação, dependendo das medidas e dos avisos em vigor.
- Vale Eficiência: apoio dirigido a famílias economicamente vulneráveis para intervenções de melhoria da eficiência energética, incluindo instalação de bombas de calor e reforço de isolamento.
- Incentivos ao autoconsumo fotovoltaico: apoios periódicos do Fundo Ambiental e regimes de autoconsumo com injeção na rede, que podem ser combinados com bombas de calor para reduzir o custo de funcionamento.
Em Portugal, estes programas substituem referências alemãs como “BAFA‑Förderung” ou “KfW”. As condições, montantes e prazos variam consoante o aviso de candidatura, pelo que é aconselhável consultar o Fundo Ambiental e a ADENE para informação atualizada.
Conclusão
Em síntese: Cada componente tem uma função específica no sistema global. O evaporador capta calor do ambiente, o compressor eleva a temperatura para um nível utilizável, o condensador transfere esse calor para o sistema de aquecimento e a válvula de expansão volta a reduzir a pressão e a temperatura do fluido frigorigéneo. O fluido frigorigéneo é o meio de transporte de calor entre todos estes componentes. Só com o funcionamento coordenado de todos eles é que a bomba de calor atinge uma operação eficiente e fiável – condição essencial para cumprir os requisitos de desempenho energético dos edifícios em Portugal.
Próximo passo: Indicadores e dimensionamento de bombas de calor
Série completa de artigos “Bombas de calor”
- O anti‑frigorífico: como funciona uma bomba de calor? – Fundamentos
- Os componentes: permutador de calor, compressor e válvula de expansão – Está aqui
- Indicadores e dimensionamento de bombas de calor – COP, SCOP e mais
- Modos de funcionamento: monovalente, bivalente e híbrido – Modos de operação
- Tipos de bomba de calor e a parceria ideal com sistemas solares – Ar‑água, solo‑água & solar