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O anti-frigorífico: como funciona uma bomba de calor?

Introdução: A estrela da tecnologia de aquecimento

As bombas de calor têm surgido recorrentemente na comunicação social nos últimos anos e são especialmente interessantes para proprietários de habitação. As bombas de calor modernas são eficientes, silenciosas e, sobretudo, sustentáveis.

Números impressionantes

  • Em vários países europeus, incluindo Portugal, mais de metade das novas moradias unifamiliares já prevê uma bomba de calor como fonte principal de aquecimento
  • O volume de negócios mundial deverá atingir em 2024 cerca de 70 mil milhões de dólares norte‑americanos
  • O princípio de funcionamento foi descoberto já no século XVII
  • O primeiro sistema de piso radiante com bomba de calor foi instalado em 1968

Porque é que estão a crescer tanto?

Os principais fatores que impulsionam as bombas de calor são:

  • Preços elevados da energia de origem fóssil
  • Maior consciência ambiental
  • Progresso tecnológico
  • Combinação com energia solar permite aquecimento com emissões de CO₂ muito reduzidas

Em Portugal, este desenvolvimento é apoiado por programas públicos como o Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis (Fundo Ambiental), que subsidia a instalação de bombas de calor, isolamento térmico e sistemas solares, bem como pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) em intervenções de reabilitação energética.

Bomba de calor e frigorífico: parentes muito próximos

Bombas de calor e frigoríficos são, na realidade, parentes muito próximos – quase como irmãos. Porque é que estes equipamentos se assemelham tanto, apesar de terem sido desenvolvidos para funções aparentemente opostas?

À primeira vista, parecem cumprir tarefas contrárias – mas um olhar “debaixo do capot” revela semelhanças surpreendentes:

Equipamento Retira calor de Liberta calor para
Frigorífico Interior do frigorífico Ambiente (parte traseira)
Bomba de calor Ambiente Interior do edifício (sistema de aquecimento)

O princípio de funcionamento é idêntico – apenas o objetivo é invertido!

Fundamentos físicos

Para compreender as bombas de calor, é necessário esclarecer primeiro dois conceitos:

  1. Estados físicos (estados de agregação)
  2. Transferência de calor

A física dos estados físicos

Modelo de partículas para estados físicos

Sólido, líquido e gasoso – estes três estados físicos estão presentes em todo o lado. Mas o que é exatamente um estado físico?

Definição: É o estado atual ou forma de apresentação da matéria, determinado pelo movimento das partículas.

Lei fundamental da natureza: Com o aumento da temperatura, as partículas movem‑se mais depressa e com maior amplitude.

As propriedades dos três estados físicos diferem de forma marcante:

Estado físico Movimento das partículas Estrutura
Sólido Vibram em torno de uma posição fixa Estrutura ordenada
Líquido Movem‑se, mas mantêm‑se próximas Parcialmente ordenada
Gasoso Movem‑se livremente Sem estrutura definida

Importante: A passagem de um estado para outro exige absorção ou cedência de energia. É precisamente isso que a bomba de calor explora!

As duas leis principais da termodinâmica

A ciência do calor – a termodinâmica – assenta em duas regras fundamentais:

1.ª Lei: Conservação de energia

A energia não pode ser criada nem destruída. Só pode ser transformada de uma forma noutra.

Exemplos:

  • Energia elétrica → calor (aquecimento elétrico)
  • Energia química → calor (combustão num fogão ou lareira)

2.ª Lei: Sentido natural do fluxo de calor

O calor desloca‑se sempre do corpo mais quente para o mais frio.

A natureza tende sempre para um equilíbrio energético.

Exemplo de uma lareira: O calor abandona a lareira quente e aquece a divisão fria – nunca o contrário.

As três formas de transferência de calor

Formas de transferência de calor: condução, convecção e radiação

O calor pode deslocar‑se de um local para outro de diferentes maneiras:

Tipo Descrição Exemplo
Condução (condução de calor) Contacto direto entre materiais Mão sobre um radiador
Convecção (corrente de convecção) Transporte de calor por gases/líquidos em movimento Ar quente que sobe
Radiação Ondas eletromagnéticas Calor do sol

Condução (condução de calor)

As partículas mais rápidas do material quente chocam com as partículas mais lentas do material frio. Assim, o calor transfere‑se por contacto direto.

Convecção (corrente de convecção)

O ar quente tem menor densidade e sobe. Leva o calor consigo e transporta‑o para outro local.

Ciclo:

  1. O ar é aquecido → densidade diminui → sobe
  2. No topo, o ar arrefece → densidade aumenta → desce
  3. Em baixo, é novamente aquecido → o ciclo repete‑se

Radiação térmica

Ondas eletromagnéticas na gama do infravermelho. Não necessita de meio material para se propagar – por isso é que o calor do sol nos chega através do vácuo do espaço.

O princípio de funcionamento da bomba de calor

Princípio de funcionamento de uma bomba de calor

A bomba de calor “bombeia” calor de um local para outro – tal como uma bomba de água transporta água.

A ideia de base

A bomba de calor:

  • Retira calor do ambiente (mesmo com ar frio!)
  • Eleva esse calor a uma temperatura mais alta através de compressão
  • Transfere o calor para o sistema de aquecimento

Mas como se obtém calor de ar frio?

O segredo está no fluido frigorigéneo – um fluido especial que evapora a temperaturas muito baixas, absorvendo calor nesse processo.

O ciclo em quatro fases

Ciclo termodinâmico de uma bomba de calor

Fase 1: Evaporação (absorção de calor)

  1. O fluido frigorigéneo líquido percorre o evaporador (permuta­dor de calor)
  2. Um ventilador aspira o ar exterior
  3. Mesmo o ar frio contém energia térmica
  4. O fluido frigorigéneo absorve esse calor e evapora (passa a gasoso)

Fase 2: Compressão (aumento de temperatura)

  1. O fluido frigorigéneo gasoso entra no compressor
  2. O compressor comprime mecanicamente o gás
  3. Com a compressão, aumentam o pressão e a temperatura
  4. O fluido frigorigéneo atinge agora uma temperatura útil para aquecimento

Fase 3: Condensação (cedência de calor)

  1. O gás quente e comprimido segue para o condensador (segundo permutador de calor)
  2. O calor é transferido para a água de aquecimento
  3. O fluido frigorigéneo condensa (volta a líquido)
  4. A água aquecida alimenta o piso radiante ou os emissores (radiadores, ventilo‑convectores, etc.)

Fase 4: Expansão (redução de pressão)

  1. O fluido frigorigéneo líquido ainda se encontra a pressão elevada
  2. A válvula de expansão provoca uma forte queda de pressão
  3. A pressão baixa → a temperatura desce
  4. O fluido frigorigéneo regressa ao seu estado inicial

E o ciclo recomeça!

Resumo das fases

As quatro fases do ciclo da bomba de calor podem ser resumidas da seguinte forma:

Fase Componente Processo Estado físico
1 Evaporador Absorção de calor Líquido → Gasoso
2 Compressor Aumento de pressão Gasoso (quente)
3 Condensador Cedência de calor Gasoso → Líquido
4 Válvula de expansão Redução de pressão Líquido (frio)

Nenhuma violação das leis da física!

À primeira vista, parece que a bomba de calor viola a segunda lei da termodinâmica: o calor fluiria do frio (ar exterior) para o quente (água de aquecimento).

A explicação: É fornecida energia (eletricidade para o compressor) para inverter o sentido natural do fluxo de calor. O sistema, no seu conjunto, respeita totalmente as leis da natureza.

O “truque”

  1. O fluido frigorigéneo é mais frio do que o ar exterior → o calor flui para dentro do fluido (fisicamente correto)
  2. Após a compressão, o fluido frigorigéneo fica mais quente do que a água de aquecimento → o calor flui para a água (fisicamente correto)

A bomba de calor não cria energia a partir do nada – apenas a transporta e transforma de forma muito eficiente.

Vantagens e desvantagens das bombas de calor

Vantagens

As bombas de calor oferecem várias vantagens face aos sistemas de aquecimento convencionais:

Vantagem Explicação
Elevada eficiência A partir de 1 kWh de eletricidade obtêm‑se 3–5 kWh de calor
Mais amigas do ambiente Sem emissões diretas de CO₂ no local de consumo
Custos de exploração reduzidos Mais económicas do que gás ou gasóleo de aquecimento
Longa vida útil Cerca de 15–25 anos
Baixa necessidade de manutenção Sem combustão = menor desgaste
Sem armazenamento de combustível Não necessita de depósito de gasóleo nem de abastecimento de gás
Apoios financeiros Em Portugal existem subsídios públicos para a instalação

Em Portugal, por exemplo, o Fundo Ambiental tem aberto várias fases do Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis, que comparticipa:

  • Bombas de calor para aquecimento ambiente e AQS
  • Isolamento térmico de paredes, coberturas e pavimentos
  • Janelas eficientes
  • Sistemas solares térmicos e fotovoltaicos

Os apoios são normalmente a fundo perdido, com percentagens de comparticipação que podem ir, em muitos casos, até cerca de 70% do investimento elegível, dentro de limites máximos por medida e por edifício. Existem ainda incentivos específicos no âmbito do PRR para reabilitação energética de edifícios residenciais e de serviços.

Desvantagens

Apesar das muitas características positivas, há também aspetos a ponderar:

Desvantagem Explicação
Investimento inicial elevado Tipicamente 10.000–25.000 € consoante o tipo e a obra necessária
Dependência da eletricidade Necessita de energia elétrica para funcionar
Eficiência reduzida com frio intenso Menos eficiente com temperaturas exteriores muito baixas
Ruído A unidade exterior pode ser audível, exigindo boa implantação
Temperaturas de ida mais baixas Não é ideal para todos os sistemas de radiadores antigos
Necessidade de espaço Unidade exterior e, em alguns casos, sondagens ou captação no solo

Enquadramento em Portugal: normas, regulamentos e certificação

Embora o princípio físico seja universal, o enquadramento técnico e legal varia de país para país. Em Portugal, são relevantes os seguintes aspetos:

Normas técnicas e cálculo de desempenho

  • O dimensionamento térmico dos edifícios e das instalações de climatização segue as normas europeias, como a EN 12831 (cálculo de cargas térmicas de aquecimento) e a EN ISO 6946 (cálculo de coeficientes de transmissão térmica – valores U), adotadas como NP EN 12831 e NP EN ISO 6946 pelo IPQ – Instituto Português da Qualidade.
  • Para o desempenho sazonal de bombas de calor utilizam‑se normas como a EN 14511 e a EN 14825, que definem condições de ensaio e métodos de cálculo do COP/SCOP. Em Portugal, estas normas são igualmente transpostas como normas NP EN.
  • O projeto de sistemas de climatização deve respeitar o Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios de Comércio e Serviços (RECS) e o Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios de Habitação (REH), integrados no Sistema de Certificação Energética dos Edifícios (SCE), gerido pela ADENE.

Regulamentação energética dos edifícios

Em Portugal, o desempenho energético dos edifícios é regulado pelo Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020, que estabelece:

  • Requisitos mínimos de isolamento térmico (valores U máximos para paredes, coberturas, pavimentos e envidraçados), que variam consoante a zona climática.
  • Exigências de eficiência para sistemas técnicos (aquecimento, arrefecimento, AQS, ventilação).
  • Obrigações de utilização de energias renováveis em edifícios novos e grandes reabilitações, nomeadamente para a produção de Água Quente Sanitária (AQS).

Certificação energética e rotulagem

  • Todos os edifícios novos, bem como os existentes quando são vendidos ou arrendados, necessitam de um Certificado Energético, emitido no âmbito do SCE por peritos qualificados.
  • As bombas de calor e outros equipamentos de climatização colocados no mercado europeu devem exibir a etiqueta energética da UE, com classes de eficiência (por exemplo, A+++ a D) e informação sobre consumo anual, potência e nível sonoro.
  • Em Portugal, esta etiqueta é obrigatória na venda de equipamentos ao consumidor final, em conformidade com os regulamentos europeus de conceção ecológica (Ecodesign) e rotulagem energética.

Conclusão

Ideia principal: As bombas de calor utilizam princípios físicos simples, mas muito engenhosos, para captar calor do ambiente e elevá‑lo a um nível de temperatura útil. O ciclo de evaporação, compressão, condensação e expansão permite obter calor de aquecimento mesmo a partir do ar frio de inverno.

Que componentes concretos entram em jogo e como interagem é explicado no artigo Os componentes: permutador de calor, compressor e válvula de expansão.


Série completa de artigos sobre bombas de calor

  1. O anti-frigorífico: como funciona uma bomba de calor? – Está aqui
  2. Os componentes: permutador de calor, compressor e válvula de expansão – Componentes
  3. Indicadores e dimensionamento de bombas de calor – COP, JAZ e mais
  4. Modos de funcionamento: monovalente, bivalente e híbrido – Modos de operação
  5. Tipos de bombas de calor e a “equipa de sonho” com sistemas solares – Ar‑água, solo‑água & solar

Fontes


Calcular agora a JAZ (fator de desempenho anual)

Com o nosso simulador de bombas de calor pode estimar a JAZ – Fator de Desempenho Anual da sua bomba de calor, incluindo custos de exploração e balanço de CO₂. Em Portugal, o desempenho sazonal é normalmente avaliado com base nas normas europeias EN 14511 e EN 14825, que estão alinhadas com os requisitos do SCE.

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