Modos de funcionamento: monovalente, bivalente e híbrido
Introdução: flexibilidade através de diferentes modos de funcionamento
As bombas de calor e, em geral, os sistemas de aquecimento podem ser explorados de diferentes formas para responder da melhor maneira possível às necessidades do edifício. Neste artigo explicamos os principais modos de funcionamento:
- Monovalente: bomba de calor como único gerador de calor
- Bivalente: bomba de calor + segundo gerador de calor
- Monoenergético: um único vetor energético, eventualmente com dois geradores de calor
- Híbrido: combinação inteligente de diferentes sistemas
Em Portugal, a escolha do modo de funcionamento deve ser sempre articulada com o cumprimento do Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios (REH), do Sistema de Certificação Energética (SCE) e com o cálculo correto das necessidades de aquecimento e arrefecimento, de acordo com as normas europeias adotadas pelo IPQ (Instituto Português da Qualidade), como a EN 12831 (cálculo de carga térmica de aquecimento) e a EN ISO 6946 (cálculo de coeficientes de transmissão térmica, U).
O que significam os termos?
Os termos técnicos têm origem no latim e descrevem o número de geradores de calor no sistema:
| Termo | Significado | Número de geradores de calor |
|---|---|---|
| Monovalente | "De um só valor" | 1 |
| Bivalente | "De dois valores" | 2 |
| Trivalente | "De três valores" | 3 |
A “valência” descreve o número de diferentes geradores de calor integrados no sistema.
Funcionamento monovalente
No funcionamento monovalente, a bomba de calor é o único gerador de calor. Cobre 100% das necessidades térmicas – mesmo nos dias mais frios.
Condições necessárias
Para que o funcionamento monovalente seja viável, é necessário cumprir algumas condições:
| Requisito | Explicação |
|---|---|
| Dimensionamento adequado | A bomba de calor tem de cobrir também as cargas de ponta |
| Edifício bem isolado | Necessidades de aquecimento reduzidas |
| Sistema de aquecimento de baixa temperatura | Piso radiante é o cenário ideal |
| Fonte de calor adequada | Ar, solo ou água subterrânea |
Em Portugal, o dimensionamento deve respeitar as metodologias do REH e as normas EN adotadas nacionalmente (por exemplo EN 12831 para a carga térmica). Os valores de referência de isolamento e coeficientes U mínimos são definidos no REH e nas respetivas portarias, que estabelecem limites máximos de U para paredes, coberturas e vãos envidraçados, especialmente em edifícios novos e grandes reabilitações.
Funcionamento
Temperatura exterior: -15°C a +20°C
│
▼
Bomba de calor ──────► 100% das necessidades de aquecimento
A bomba de calor funciona todo o ano e adapta a sua potência às necessidades (tecnologia inverter).
Vantagens do funcionamento monovalente
A exploração com apenas um gerador de calor apresenta vantagens claras:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Sistema simples | Apenas uma fonte de calor |
| Máxima eficiência | Não há comutação entre sistemas |
| 100% renovável | Com eletricidade de origem renovável, operação praticamente isenta de CO₂ |
| Baixa manutenção | Só existe um sistema a manter |
Desvantagens do funcionamento monovalente
A simplicidade também tem limites:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Investimento inicial mais elevado | A bomba de calor tem de ser dimensionada para as cargas máximas |
| Eficiência com frio intenso | A eficiência diminui com temperaturas exteriores muito baixas |
| Requisitos do edifício | Nem sempre adequado para edifícios antigos sem reabilitação térmica |
Quando faz sentido?
- Edifícios novos com bom isolamento térmico (cumprimento confortável do REH)
- Edifícios bem reabilitados energeticamente
- Edifícios com piso radiante ou outros emissores de baixa temperatura
- Bombas de calor sal‑água ou água‑água (fonte de calor mais estável)
Funcionamento bivalente
No funcionamento bivalente, a bomba de calor trabalha em conjunto com um segundo gerador de calor (por exemplo, caldeira a gás, gasóleo ou resistência elétrica).
Duas variantes
Bivalente-paralelo
Ambos os geradores de calor funcionam em simultâneo quando a necessidade é elevada.
┌── Bomba de calor ──────┐
Necessidade elevada ───►│ ├──► Aquecimento
└── Aquecimento de apoio ─┘
Bivalente-alternativo
A partir de uma determinada temperatura exterior (ponto de bivalência), o segundo gerador de calor assume totalmente a produção.
Acima de -5°C: Bomba de calor ──────────────► Aquecimento
Abaixo de -5°C: Aquecimento de apoio ────────► Aquecimento
(bomba de calor parada)
O ponto de bivalência
O ponto de bivalência é a temperatura exterior à qual:
- A bomba de calor atinge o seu limite de potência
- O segundo gerador de calor entra em funcionamento
Valores típicos: -3°C a -8°C (em muitas regiões europeias).
Em grande parte de Portugal continental, as temperaturas mínimas são mais moderadas, pelo que o ponto de bivalência pode situar‑se em valores menos extremos (por exemplo, entre 0°C e -3°C), dependendo da zona climática definida no REH (litoral/interior, norte/sul, altitude).
Vantagens do funcionamento bivalente
A combinação de dois geradores de calor oferece vantagens específicas:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Bomba de calor mais pequena | Não precisa de ser dimensionada para os casos extremos |
| Investimento inicial mais baixo | A bomba de calor pode ser de menor potência |
| Flexibilidade | Eficiência otimizada em função das condições |
| Segurança de abastecimento | Existe um sistema de reserva |
Desvantagens do funcionamento bivalente
A flexibilidade também traz desvantagens:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Dois sistemas | Maior esforço de manutenção |
| Regulação mais complexa | A comutação entre sistemas tem de funcionar corretamente |
| Combustíveis fósseis | Com gás ou gasóleo como apoio, o sistema deixa de ser neutro em CO₂ |
Vantagens e desvantagens por variante
As duas variantes de funcionamento bivalente têm características próprias:
| Variante | Vantagem | Desvantagem |
|---|---|---|
| Bivalente-paralelo | A bomba de calor funciona mais horas (maior quota renovável) | Dois sistemas ativos em simultâneo |
| Bivalente-alternativo | Separação clara entre modos de funcionamento | A bomba de calor é desligada com frio mais intenso |
Funcionamento monoenergético
Não confundir com monovalente!
Monoenergético significa: utiliza‑se apenas um vetor energético, mesmo que existam vários geradores de calor.
Exemplo
Eletricidade (incl. solar) ──┬──► Bomba de calor
│
└──► Resistência elétrica
Ambos os geradores de calor utilizam energia elétrica – o sistema é bivalente (dois geradores de calor), mas monoenergético (um único vetor energético).
Vantagem
Com eletricidade de origem renovável (por exemplo, através de sistemas fotovoltaicos apoiados por programas como o Vale Eficiência ou o Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis, quando disponíveis), todo o sistema pode funcionar de forma praticamente neutra em CO₂.
Bombas de calor híbridas
A bomba de calor híbrida é a combinação inteligente de uma bomba de calor com um gerador de calor convencional.
Configuração
Muitas vezes, ambos os geradores de calor são integrados numa unidade compacta:
- Bomba de calor (primária)
- Caldeira de condensação a gás ou resistência elétrica (secundária)
- Sistema de controlo inteligente (integrado)
Funcionamento
O modo híbrido alterna automaticamente entre diferentes modos:
Consoante a temperatura exterior e a necessidade de calor, o sistema escolhe automaticamente o modo de funcionamento mais adequado:
| Situação | Modo de funcionamento |
|---|---|
| Condições normais (mildas) | Apenas bomba de calor |
| Necessidade aumentada | Ambos em paralelo |
| Frio intenso | Bomba de calor + caldeira |
| Frio muito extremo | Apenas caldeira |
A decisão da regulação inteligente
O sistema de controlo otimiza automaticamente com base em:
- Temperatura exterior
- Necessidade térmica atual
- Custos de exploração (preço da eletricidade vs. gás)
- Eficiência da bomba de calor
Vantagens da bomba de calor híbrida
A combinação inteligente oferece várias vantagens:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Componentes bem ajustados | Os componentes são concebidos para funcionar em conjunto |
| Solução compacta | Muitas vezes um único equipamento em vez de dois separados |
| Gestão inteligente | Otimização automática do modo de funcionamento |
| Económico em exploração | Utiliza sempre a fonte de calor mais vantajosa |
| Preparado para o futuro | A quota de funcionamento da bomba de calor pode ser aumentada mais tarde |
Desvantagens da bomba de calor híbrida
Apesar das muitas vantagens, existem também limitações:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Nem sempre 100% renovável | Com apoio a gás, continuam a usar‑se combustíveis fósseis |
| Sistema mais complexo | Mais componentes e maior complexidade de controlo |
| Dependência do fabricante | Muitas soluções só funcionam com combinações específicas |
Quando faz sentido?
- Reabilitação de edifícios existentes – a caldeira existente é complementada por uma bomba de calor
- Edifícios antigos com necessidades de aquecimento elevadas
- Fase de transição para um sistema de aquecimento totalmente renovável
- Quando existe ligação à rede de gás e se pretende aproveitar a infraestrutura existente
Visão geral: que modo de funcionamento para que situação?
A tabela seguinte mostra que modo de funcionamento é, em regra, mais adequado a cada situação de edifício:
| Modo de funcionamento | Ideal para | Não adequado para |
|---|---|---|
| Monovalente | Edifícios novos, edifícios reabilitados | Edifícios antigos sem isolamento |
| Bivalente-paralelo | Edifícios existentes com necessidades moderadas | — |
| Bivalente-alternativo | Regiões com invernos muito frios | Climas muito amenos |
| Híbrido | Reabilitações, edifícios existentes | Edifícios novos (tende a ser sobredimensionado) |
Apoios e enquadramento regulamentar em Portugal
Ao planear qualquer uma destas soluções em Portugal, é importante considerar:
-
O Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios (REH) e o Sistema de Certificação Energética (SCE), que definem:
- requisitos mínimos de desempenho térmico da envolvente (valores U máximos para paredes, coberturas, pavimentos e vãos envidraçados);
- requisitos de eficiência dos sistemas técnicos (incluindo bombas de calor);
- obrigações de integração de energias renováveis em edifícios novos e grandes reabilitações (por exemplo, contribuição mínima de energia renovável para AQS e, em muitos casos, para aquecimento/arrefecimento).
-
As normas europeias adotadas em Portugal, como:
- EN 12831 (cálculo da carga térmica de aquecimento);
- EN ISO 6946 (cálculo de coeficientes de transmissão térmica, U);
- normas de desempenho e ensaio de bombas de calor (por exemplo, EN 14511, EN 14825), utilizadas para a classificação energética e para o cálculo do SCOP/SEER.
-
O Sistema de Certificação Energética (SCE), gerido pela ADENE, que obriga à emissão de um Certificado Energético:
- em edifícios novos;
- em grandes intervenções de reabilitação;
- na venda ou arrendamento de imóveis.
A classe energética (de F a A+ ou superior) tem em conta a qualidade da envolvente e a eficiência dos sistemas técnicos, incluindo bombas de calor, sistemas solares térmicos e fotovoltaicos.
Incentivos e apoios financeiros
Em vez de referências alemãs como BAFA ou KfW, em Portugal existem programas nacionais e, por vezes, regionais. Entre os mais relevantes (sujeitos a atualização e reabertura de candidaturas) contam‑se:
-
Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis (Fundo Ambiental)
- Apoia medidas como instalação de bombas de calor, reforço de isolamento térmico, substituição de janelas, sistemas solares térmicos e fotovoltaicos.
- Comparticipações típicas entre 50–85% do investimento elegível, com tetos máximos por tipologia de medida e por edifício.
- Elegível para edifícios de habitação existentes, mediante apresentação de faturas e, em muitos casos, de Certificado Energético antes e/ou depois da intervenção.
-
Vale Eficiência
- Apoio dirigido a famílias em situação de vulnerabilidade energética.
- Concede vales (tipicamente de cerca de 1.300 € por vale, podendo existir mais do que um por agregado) para medidas como bombas de calor para AQS/aquecimento, janelas eficientes, isolamento, equipamentos de climatização eficientes e sistemas solares.
-
Programas regionais e municipais
- Alguns municípios e regiões (por exemplo, através de programas financiados por fundos europeus – Portugal 2030, PRR) podem lançar avisos específicos para reabilitação energética, incluindo bombas de calor, isolamento e renováveis.
-
Benefícios fiscais pontuais
- Em determinados anos, têm existido deduções em sede de IRS para despesas com eficiência energética em habitação própria permanente (até um limite anual), incluindo janelas eficientes, isolamento e sistemas de energias renováveis.
- A legislação fiscal é atualizada com frequência, pelo que é recomendável verificar as regras em vigor no ano da intervenção.
Ao escolher entre funcionamento monovalente, bivalente, monoenergético ou híbrido, é aconselhável verificar que tipo de solução é elegível nos programas ativos e quais os requisitos (por exemplo, classe mínima de eficiência da bomba de calor, existência de Certificado Energético, limite de rendimento do agregado, etc.).
Ajuda à decisão
Perguntas de orientação
-
Quão bem está o edifício isolado?
- Bom isolamento (cumprimento confortável do REH) → funcionamento monovalente é muitas vezes possível
- Isolamento fraco → funcionamento bivalente ou híbrido tende a ser mais adequado
-
Que sistema de emissão de calor existe?
- Piso radiante ou ventiloconvetores de baixa temperatura → monovalente é ideal
- Radiadores antigos de alta temperatura → poderá ser preferível uma solução bivalente ou híbrida
-
Existe ligação à rede de gás?
- Sim → vale a pena analisar uma solução híbrida (bomba de calor + caldeira a gás)
- Não → considerar bomba de calor monovalente ou bivalente com apoio elétrico
-
Quão importante é ter 100% de energia renovável?
- Muito importante → funcionamento monovalente ou monoenergético com eletricidade renovável (eventualmente combinada com fotovoltaico)
- Menos prioritário → todas as opções (monovalente, bivalente, híbrido) estão em aberto
Conclusão
Resumo: A escolha do modo de funcionamento depende do estado do edifício, do sistema de aquecimento existente, da zona climática, do orçamento e dos objetivos ambientais de cada pessoa. Em edifícios novos com bom desempenho térmico, o funcionamento monovalente é, na maioria dos casos, a melhor opção – a bomba de calor assume sozinha toda a carga de aquecimento. Em edifícios existentes e menos eficientes, os sistemas híbridos ou bivalentes permitem uma transição gradual para a bomba de calor, tirando partido da infraestrutura existente até que seja possível uma reabilitação mais profunda, muitas vezes apoiada por programas como o Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis ou o Vale Eficiência.
Curioso para saber mais? → Tipos de bombas de calor e a dupla perfeita com sistemas solares
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- Indicadores e dimensionamento de bombas de calor – COP, JAZ e outros
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