Tipos de bombas de calor e a dupla perfeita com sistemas solares
Introdução: A bomba de calor certa para cada situação
Cada edifício é diferente e exige um sistema de aquecimento bem pensado. As bombas de calor não existem apenas num único formato – há vários tipos para diferentes aplicações.
Os três tipos de bomba de calor mais comuns:
- Bomba de calor ar‑água
- Bomba de calor solo‑água (geotermia)
- Bomba de calor ar‑ar
A designação indica sempre:
- Primeira palavra: fonte de calor (de onde vem a energia térmica?)
- Segunda palavra: fluido de distribuição (como é distribuído o calor no edifício?)
Em Portugal, o dimensionamento e a avaliação de desempenho das bombas de calor devem respeitar o REH – Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios de Habitação e o RECS – Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios de Comércio e Serviços, aprovados pelo Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020, bem como as normas europeias harmonizadas (por exemplo EN 14825 para desempenho sazonal e EN 14511 para condições de ensaio).
Bomba de calor ar‑água
É atualmente a variante mais utilizada em Portugal para moradias unifamiliares e pequenas habitações coletivas. Retira calor ao ar exterior e transfere‑o para a água do sistema de aquecimento.
Princípio de funcionamento
Ar exterior (fonte de calor)
│
▼ Ventilador aspira o ar
│
Evaporador (captação de calor)
│
▼ Circuito de fluido frigorigéneo
│
Condensador (cedência de calor)
│
▼
Água de aquecimento → piso radiante / radiadores
Constituição
- Unidade exterior: evaporador com ventilador
- Unidade interior: compressor, condensador, comando/regulação
- Sistema split: unidade interior e exterior separadas (muito comum)
- Monobloco: todos os componentes num único equipamento (mais compacto)
Vantagens
A bomba de calor ar‑água destaca‑se sobretudo pela instalação simples:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Instalação mais económica | Não exige furações profundas nem escavações extensas |
| Aplicável quase em todo o lado | Não requer características especiais do terreno |
| Montagem rápida | Instalação em poucos dias |
| Adequada para reabilitação | Pode substituir caldeiras existentes em edifícios em uso |
Desvantagens
A utilização do ar exterior também traz alguns inconvenientes:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Eficiência com frio | Menor eficiência em temperaturas exteriores muito baixas |
| Ruído | A unidade exterior pode ser audível; é importante o correto posicionamento |
| Impacto visual | A unidade exterior fica visível na fachada ou no jardim |
| Potência variável | Depende fortemente da temperatura exterior |
Quando faz sentido?
- Solução padrão para a maioria das moradias unifamiliares
- Quando não é viável fazer trabalhos de escavação ou furações profundas
- Em projetos com orçamento de instalação limitado
- Para substituição de sistemas existentes em edifícios já construídos
Nota regulamentar (Portugal):
Para integração em projetos novos ou reabilitações relevantes, o sistema deve cumprir os requisitos de eficiência do SCE – Sistema de Certificação Energética dos Edifícios e contribuir para atingir a classe energética prevista no certificado energético. O cálculo das necessidades de aquecimento segue metodologias nacionais baseadas nas normas EN (por exemplo, cálculo de cargas térmicas segundo EN 12831, transposta em metodologias do SCE).
Bomba de calor solo‑água (geotermia)
Este tipo de bomba de calor utiliza a temperatura praticamente constante do solo como fonte de calor. É também conhecido como bomba de calor geotérmica.
O que é a “salmoura” (sole)?
Salmoura (sole) = água + anticongelante
Esta mistura circula em tubagens enterradas no solo e transporta o calor até à bomba de calor.
Duas variantes principais
Coletores horizontais
- Tubagens colocadas horizontalmente a pouca profundidade (cerca de 1–1,5 m)
- Necessitam de uma área de terreno relativamente grande
- Regra prática: 1 m² de coletor ≈ 25 W de potência térmica
A área de coletor necessária depende da potência de aquecimento pretendida:
| Potência de aquecimento | Área necessária |
|---|---|
| 5 kW | ~200 m² |
| 8 kW | ~320 m² |
| 10 kW | ~400 m² |
Sondas verticais
- Perfurações verticais profundas (tipicamente 40–150 m)
- Menor necessidade de área à superfície
- Temperatura mais estável em profundidade
- Regra prática: 1 metro de profundidade ≈ 40–80 W de potência
A profundidade total de furação varia consoante o tipo de solo e a potência desejada:
| Potência de aquecimento | Profundidade de furação |
|---|---|
| 5 kW | 60–125 m |
| 8 kW | 100–200 m |
| 10 kW | 125–250 m |
Em Portugal, perfurações geotérmicas verticais podem exigir licenciamento junto da APA/ARH e da autarquia, sobretudo quando interferem com aquíferos. É fundamental envolver um projetista credenciado e verificar o Plano Diretor Municipal e o regime jurídico dos recursos hídricos antes de avançar.
Vantagens
A utilização do calor constante do solo oferece vantagens importantes:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Elevada eficiência | Temperatura do solo relativamente constante (~10–15 °C em grande parte do país) |
| Desempenho estável todo o ano | Pouco dependente da temperatura exterior |
| Muito silenciosa | Não necessita de ventilador exterior |
| Longa durabilidade | Coletores e sondas podem durar várias décadas |
| JAZ muito elevada | Fator de desempenho sazonal frequentemente > 4,5 |
Desvantagens
A alta eficiência vem acompanhada de algumas limitações:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Custos de instalação elevados | Escavações ou perfurações profundas são dispendiosas |
| Necessidade de licenças | Perfurações verticais exigem frequentemente autorização |
| Requer área de terreno | Coletores horizontais precisam de grande superfície livre |
| Nem sempre viável | Tipo de solo, aquíferos e acessos podem limitar a solução |
Quando faz sentido?
- Novas construções com terreno disponível (coletores horizontais)
- Terrenos com condições geológicas adequadas para sondas verticais
- Quando se pretende uma investimento de longo prazo com custos de exploração reduzidos
- Quando se procura máxima eficiência energética e melhor classe no certificado energético
Bomba de calor ar‑ar
A bomba de calor ar‑ar transfere o calor diretamente através do ar – sem utilizar água de aquecimento.
Também conhecida como: aparelho de ar condicionado
Os aparelhos de ar condicionado usados em hotéis ou em climas quentes são, na realidade, bombas de calor ar‑ar. Podem:
- Aquecer (transportar calor do exterior para o interior)
- Arrefecer (transportar calor do interior para o exterior)
Duas variantes principais
Sistema split
- Unidade exterior: funciona como evaporador/condensador consoante o modo
- Unidade interior: cede ou retira calor diretamente ao ar do compartimento
- Ligação através de tubagens de fluido frigorigéneo
Aquecimento por ar com recuperação de calor
- Utiliza o ar de extração (ar viciado) como fonte de calor
- O ar novo é aquecido pela energia recuperada
- Muito utilizado em edifícios de muito baixo consumo, como edifícios quase zero energia (nZEB)
Vantagens
A bomba de calor ar‑ar é especialmente interessante em edifícios bem isolados:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Função de arrefecimento | Atua como ar condicionado no verão |
| Resposta rápida | O aquecimento é feito diretamente no ar ambiente |
| Instalação económica | Não exige rede de aquecimento hidráulica |
| Controlo por compartimento | Cada divisão pode ser regulada individualmente |
Desvantagens
Como sistema de aquecimento exclusivamente por ar, apresenta algumas limitações:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Não produz AQS | É necessário outro sistema para águas quentes sanitárias |
| Possível sensação de corrente de ar | O ar quente é insuflado no espaço |
| Pó e alergénios | A filtragem e manutenção dos filtros é essencial |
| Eficiência de aquecimento inferior | Em geral menos eficiente do que sistemas ar‑água para aquecimento central |
Quando faz sentido?
- Edifícios muito bem isolados ou nZEB com ventilação mecânica controlada
- Aquecimento complementar de divisões específicas (sótãos, anexos, escritórios)
- Quando se pretende também arrefecimento com o mesmo equipamento
- Em reabilitações parciais onde não é viável instalar uma rede de aquecimento hidráulica
Comparação dos tipos de bomba de calor
Os três tipos de bomba de calor diferem em vários aspetos importantes:
| Critério | Ar‑água | Solo‑água | Ar‑ar |
|---|---|---|---|
| JAZ típica (SCOP) | 3,0–4,0 | 4,0–5,0 | 2,5–3,5 |
| Custos de instalação | Médios | Elevados | Baixos |
| Custos de exploração | Médios | Baixos | Médios |
| Necessidade de espaço | Reduzida | Elevada | Reduzida |
| Produção de AQS | Sim | Sim | Não |
| Possibilidade de arrefecimento | (Com complemento) | (Com complemento) | Sim |
| Nível de ruído | Médio | Muito baixo | Médio |
| Licenças/autorização | Raramente | Frequentemente | Raramente |
Em Portugal, a seleção do tipo de bomba de calor deve ser articulada com o projeto térmico do edifício, que segue as metodologias do SCE. O cálculo de coeficientes de transmissão térmica (valores‑U) dos elementos da envolvente baseia‑se na EN ISO 6946, aplicada através de regulamentos e guias nacionais (por exemplo, requisitos de U‑valor e espessuras mínimas de isolamento definidos no DL 101‑D/2020 e respetivas portarias).
A dupla perfeita: bomba de calor + sistema solar
Melhor do que uma tecnologia sustentável? Duas tecnologias sustentáveis a trabalhar em conjunto.
A combinação de bomba de calor com sistema solar fotovoltaico pode permitir aquecer a habitação com emissões de CO2 muito reduzidas, aproximando‑se da neutralidade carbónica, sobretudo quando se utiliza eletricidade de origem renovável.
Porque combinam tão bem?
As duas tecnologias complementam‑se de forma ideal, como se vê neste resumo:
| Componente | Fornece | Necessita |
|---|---|---|
| Sistema fotovoltaico | Energia elétrica | Radiação solar |
| Bomba de calor | Calor para aquecimento e AQS | Energia elétrica |
O sistema fotovoltaico produz eletricidade durante o dia – precisamente quando a bomba de calor pode operar para aquecer a água do depósito e, em muitos casos, o próprio edifício.
Funcionamento da combinação
Módulos fotovoltaicos
│
▼ Energia solar (DC)
│
Inversor ─────────────┬──► Bomba de calor
│
├──► Consumos do agregado familiar
│
└──► Bateria (opcional)
Vantagens da combinação
A combinação dos dois sistemas traz vários benefícios:
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Aquecimento com baixas emissões de CO2 | Utilização prioritária de eletricidade solar própria |
| Custos de exploração reduzidos | Menor dependência da eletricidade da rede |
| Maior independência energética | Redução do consumo em horas de ponta e da exposição a aumentos tarifários |
| Elegível para apoios | Programas públicos de incentivo à eficiência energética e renováveis |
| Sinergia técnica | A produção solar e o consumo da bomba de calor podem ser otimizados em conjunto |
Incentivos em Portugal (situação típica recente):
- Programa “Edifícios Mais Sustentáveis” (Fundo Ambiental): apoios a fundo perdido para bombas de calor, isolamento térmico e sistemas solares térmicos/fotovoltaicos em habitação própria permanente. Percentagem de apoio frequentemente entre 60–85% do investimento elegível, com tetos por medida (por exemplo, alguns milhares de euros para bombas de calor e PV), sujeito a candidaturas em fases.
- Incentivos municipais: alguns municípios concedem reduções de IMI ou taxas urbanísticas para edifícios com melhor classe energética ou com integração de renováveis.
- Benefícios fiscais pontuais: em determinados anos, parte do investimento em eficiência energética em habitação própria pode ser dedutível em sede de IRS, de acordo com o Orçamento do Estado em vigor.
As condições concretas variam ao longo do tempo; é essencial consultar o Fundo Ambiental e a ADENE para informação atualizada.
Desvantagens da combinação
A combinação não está isenta de desafios:
| Desvantagem | Explicação |
|---|---|
| Investimento inicial elevado | É necessário adquirir e instalar dois sistemas |
| Produção solar no inverno | Menor produção precisamente quando as necessidades de aquecimento são maiores |
| Maior complexidade | Mais componentes, necessidade de um projeto integrado e de uma boa gestão de cargas |
Como mitigar o problema de inverno
No inverno, a necessidade de aquecimento é elevada, mas a produção fotovoltaica é mais baixa. Possíveis soluções:
- Dimensionar uma instalação fotovoltaica maior – para garantir produção suficiente mesmo em dias de inverno com sol.
- Instalar um sistema de armazenamento em bateria – para guardar excedentes diurnos e utilizá‑los ao fim do dia.
- Otimizar a estratégia de carga – programar a bomba de calor e a bateria para maximizar o uso de energia solar (por exemplo, aquecer o depósito de AQS nas horas de maior produção).
- Utilizar a rede como apoio – o restante consumo é coberto pela rede elétrica, idealmente com um comercializador de eletricidade 100% renovável.
Dimensionamento da combinação
Regra prática para dimensionar PV com bomba de calor:
Potência fotovoltaica “normal” para a habitação + 2–3 kWp adicionais para alimentar a bomba de calor
Consoante a potência da bomba de calor, a instalação fotovoltaica deve ser dimensionada em conformidade:
| Potência da bomba de calor | PV adicional recomendado |
|---|---|
| 5 kW | +2 kWp |
| 8 kW | +3 kWp |
| 12 kW | +4–5 kWp |
Exemplo de configuração
Uma moradia unifamiliar típica em Portugal poderia ser equipada da seguinte forma:
| Componente | Dimensionamento |
|---|---|
| Área útil aquecida | 150 m² |
| Bomba de calor | 10 kW (ar‑água) |
| Sistema fotovoltaico | 10 kWp (incluindo a cobertura do consumo da bomba de calor) |
| Bateria | 10 kWh |
| Grau de autonomia esperado | 60–70% do consumo elétrico anual |
Certificação energética em Portugal:
A combinação de bomba de calor com fotovoltaico contribui significativamente para melhorar a classe energética do edifício no âmbito do SCE. O certificado energético é obrigatório em:
- edifícios novos,
- grandes intervenções de reabilitação,
- venda ou arrendamento de imóveis.
As classes vão de A+ (mais eficiente) a F (menos eficiente), e a presença de sistemas renováveis é um fator determinante para atingir classes A ou superiores.
Conclusão
Em resumo: A escolha do tipo de bomba de calor depende de vários fatores: em situações com pouco espaço exterior ou em edifícios existentes, a bomba de calor ar‑água é geralmente a opção mais prática. Quem procura a máxima eficiência e dispõe de terreno adequado num edifício novo pode optar por uma bomba de calor solo‑água. A bomba de calor ar‑ar oferece a vantagem de também permitir arrefecimento, sendo interessante em edifícios bem isolados. A combinação com um sistema solar fotovoltaico é a dupla ideal para um aquecimento sustentável em Portugal – com eletricidade solar própria, a bomba de calor aproxima‑se de um sistema de aquecimento praticamente isento de emissões de CO2, contribuindo para melhores classes no certificado energético e para o cumprimento do quadro regulamentar nacional (DL 101‑D/2020).
Mais sobre bombas de calor
Este artigo faz parte da nossa série sobre bombas de calor. Os outros artigos:
| Parte | Foco |
|---|---|
| Funcionamento | O “anti‑frigorífico”: compreender o princípio de base |
| Componentes | Permutadores de calor, compressor, válvula de expansão |
| Indicadores | COP, JAZ/SCOP e dimensionamento correto |
| Modos de funcionamento | Monovalente, bivalente ou híbrido? |
| Tipos & solar | Este artigo |
Temas relacionados
As bombas de calor combinam‑se de forma ideal com sistemas solares. Mais informação de enquadramento:
Sistemas solares: Como funciona uma célula solar? · Constituição de uma instalação FV · Glossário de indicadores
Armazenamento de energia: Fundamentos da tecnologia de baterias · Lítio vs. chumbo · Inversores híbridos · Topologias de sistemas AC/DC
Powerstations: Comparação de tecnologias · Powerstations explicadas · Análise de mercado 2025
Fontes
- Wolf: Luft-Wasser-Wärmepumpe
- Heizung.de: Luft-Wasser-Wärmepumpe
- Viessmann: Sole-Wasser-Wärmepumpe
- Heizung.de: Flächenkollektoren
- Wolf: Luft-Luft-Wärmepumpe
- Viessmann: Wärmepumpe + Photovoltaik
- Wolf: Wärmepumpe mit Photovoltaik
- ADENE – Agência para a Energia: documentação sobre o SCE e regulamentos de desempenho energético dos edifícios em Portugal
- Fundo Ambiental: avisos do programa “Edifícios Mais Sustentáveis” e outros apoios à eficiência energética e energias renováveis