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Calcular a potência da bomba de calor: da carga térmica ao dimensionamento correto

Porque é que a potência certa é decisiva

Uma bomba de calor de 6 kW custa menos do que uma de 12 kW – mas será que é adequada ao edifício? A resposta está na carga térmica: é ela que determina quanta potência térmica uma casa precisa nos dias mais frios do ano.

Uma bomba de calor subdimensionada não consegue manter os espaços confortáveis em dias de geada. A resistência elétrica de apoio entra em funcionamento – e a fatura de eletricidade dispara. Uma bomba de calor sobredimensionada, por outro lado, entra em funcionamento e desliga constantemente: liga, atinge rapidamente a temperatura de ida pretendida, desliga, o sistema arrefece, volta a ligar. Este ciclo de arranques e paragens sobrecarrega o compressor e reduz a eficiência em cerca de 10–15 %.

Este artigo apresenta três caminhos para chegar à potência correta: o cálculo profissional da carga térmica, o método por regra de bolso e a estimativa a partir do consumo energético anterior.

Passo 1: Determinar a carga térmica

A carga térmica é a potência de aquecimento, em quilowatts, de que um edifício necessita à temperatura exterior de projeto (a temperatura exterior mínima de referência) para manter a temperatura interior desejada. É a base de qualquer dimensionamento de bomba de calor.

O método de referência: cálculo segundo a norma

O método mais rigoroso é o cálculo da carga térmica por compartimento, de acordo com as normas europeias aplicáveis (equivalentes à EN 12831) e com o Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios (REH) em Portugal. Para cada divisão são determinados:

  • as perdas por transmissão (através de paredes, janelas, cobertura, pavimento), calculadas com base nos coeficientes de transmissão térmica U segundo a EN ISO 6946 (implementada em Portugal via normas NP EN ISO) e requisitos do REH;
  • as perdas por ventilação/renovação de ar;
  • a temperatura exterior de projeto da zona climática (definida no REH);
  • a localização do edifício e as temperaturas interiores de cálculo.

Em Portugal, este tipo de cálculo é normalmente efetuado por projetistas térmicos ou peritos qualificados em certificação energética, utilizando software reconhecido pela ADENE (por exemplo, para emissão do Certificado Energético).

Sugestão: Mesmo que utilize regras de bolso, para o dimensionamento final da bomba de calor é recomendável um cálculo de carga térmica efetuado por um projetista ou perito qualificado, de acordo com o REH e as normas EN aplicáveis. Este cálculo é também a base para o Certificado Energético em Portugal.

O método da regra de bolso

Quando não é possível fazer um cálculo detalhado, pode recorrer‑se a uma estimativa aproximada com base na área útil aquecida e no tipo/nível de isolamento do edifício:

Fórmula: Carga térmica (kW) = Área útil aquecida (m²) × carga térmica específica (W/m²) ÷ 1.000

A carga térmica específica depende fortemente do nível de isolamento e da idade da construção:

Tipo de edifício (Portugal) Carga térmica específica Exemplo 150 m²
Edifício muito eficiente (p.ex. NZEB / quase zero energia, REH atual) 10–20 W/m² 1,5–3,0 kW
Construção nova recente (REH pós‑2021, bom isolamento) 25–35 W/m² 3,8–5,3 kW
Construção dos anos 2000 com melhorias 35–45 W/m² 5,3–6,8 kW
Edifício existente bem reabilitado (isolamento em paredes/cobertura, janelas eficientes) 50–70 W/m² 7,5–10,5 kW
Edifício parcialmente reabilitado 70–100 W/m² 10,5–15 kW
Edifício antigo sem isolamento relevante 100–150 W/m² 15–22,5 kW

Exemplo de cálculo: Um edifício antigo reabilitado com 150 m² e 60 W/m² resulta em: 150 × 60 ÷ 1.000 = 9 kW de carga térmica.

Estimativa a partir do consumo energético

Se conhecer os seus custos de aquecimento anteriores, pode também derivar a carga térmica a partir do consumo anual. A conversão faz‑se através das chamadas horas de utilização plena – cerca de 2.000 horas por ano em que o sistema de aquecimento funcionaria, em termos médios, à potência nominal.

Para gás natural: Carga térmica (kW) = Consumo anual (kWh) ÷ 2.000

Para gasóleo de aquecimento: Carga térmica (kW) = Consumo anual (litros) × 10 ÷ 2.000

(aproximando 1 litro de gasóleo ≈ 10 kWh)

Exemplo gás natural: Com 20.000 kWh de consumo anual de gás: 20.000 ÷ 2.000 = 10 kW de carga térmica.

Exemplo gasóleo: Com 2.000 litros de gasóleo: 2.000 × 10 ÷ 2.000 = 10 kW de carga térmica.

Nota: Este método fornece apenas valores indicativos. O consumo real depende do comportamento dos utilizadores e das condições climáticas de cada inverno. Para dimensionar uma bomba de calor, um cálculo de carga térmica conforme as normas e o REH é claramente mais fiável.

Passo 2: Considerar os acréscimos

A carga térmica de aquecimento, por si só, não é suficiente para dimensionar a bomba de calor. É necessário acrescentar dois fatores: a preparação de água quente sanitária (AQS) e eventuais períodos de corte ou gestão de carga por parte do comercializador de energia.

Preparação de água quente sanitária (AQS)

Se a bomba de calor também for responsável pela AQS, é preciso prever potência adicional. Como regra de bolso, utilizam‑se frequentemente cerca de 0,25 kW por pessoa no agregado familiar.

Tamanho do agregado Acréscimo para AQS
2 pessoas 0,5 kW
3 pessoas 0,75 kW
4 pessoas 1,0 kW
5 pessoas 1,25 kW

Em agregados com consumos elevados de AQS (banhos diários, várias duches em simultâneo, banheiras de grande volume), o acréscimo pode ter de ser maior.

Períodos de corte / gestão de carga

Em Portugal, alguns comercializadores de eletricidade oferecem tarifas diferenciadas (p.ex. bi‑horárias ou tri‑horárias) e podem, em certos contratos de gestão de carga, ter a possibilidade de interromper temporariamente o fornecimento a cargas específicas. Embora isto ainda seja menos comum para bombas de calor residenciais do que noutros países, o princípio de cálculo é o mesmo sempre que exista a possibilidade de cortes programados.

Durante o período de corte, o edifício tem de ser aquecido pela energia previamente acumulada na massa térmica (pavimentos radiantes, paredes, depósito tampão). Para que a bomba de calor consiga produzir calor suficiente nas horas restantes, é necessária potência adicional.

Fórmula: Potência adicional = Carga térmica × (período de corte em horas ÷ 24)

Exemplo de cálculo: Com 9 kW de carga térmica e 6 horas de corte diário: 9 × (6 ÷ 24) = 9 × 0,25 = 2,25 kW de potência adicional.

Bombas de calor modernas com depósitos tampão bem dimensionados conseguem, muitas vezes, ultrapassar períodos de corte sem necessidade de grande acréscimo de potência. Em sistemas de piso radiante, a própria massa do edifício funciona como armazenamento de calor.

Passo 3: Calcular a potência total necessária

Juntando todos os fatores, obtém‑se a potência necessária da bomba de calor:

Potência total = Carga térmica + Acréscimo para AQS + Acréscimo por períodos de corte

Exemplo prático completo

Um edifício unifamiliar vai ser equipado com uma bomba de calor:

Dados do edifício Valor
Área útil aquecida 160 m²
Ano de construção, reabilitação 1985, isolamento em 2015
Carga térmica específica 55 W/m²
Pessoas no agregado 4
Período de corte/gestão de carga 6 horas/dia

Cálculo:

Item Cálculo Resultado
Carga térmica 160 m² × 55 W/m² ÷ 1.000 8,8 kW
AQS 4 pessoas × 0,25 kW 1,0 kW
Corte/gestão de carga 8,8 kW × (6 ÷ 24) 2,2 kW
Total 12,0 kW

Uma bomba de calor com 10–12 kW de potência nominal seria adequada neste caso. A maioria dos fabricantes oferece equipamentos em patamares de potência como 8, 10, 12 ou 14 kW.

Valores de referência por tipo de edifício

Tipo de edifício (Portugal) Área Carga térmica Com acréscimos Bomba de calor recomendada
Edifício muito eficiente (NZEB / REH atual) 140 m² 2,0 kW 3,5 kW 4–5 kW
Construção nova eficiente (REH, bom isolamento) 150 m² 6,0 kW 8,5 kW 8–10 kW
Edifício existente reabilitado 160 m² 8,8 kW 12,0 kW 10–12 kW
Edifício parcialmente reabilitado 180 m² 14,4 kW 18,5 kW 16–18 kW
Edifício antigo sem isolamento relevante 150 m² 18,0 kW 22,5 kW 20–24 kW

Erros frequentes no dimensionamento

Problema: sobredimensionamento

A ideia muito difundida de que “mais potência é sempre mais seguro” conduz a problemas quando se trata de bombas de calor. Uma bomba de calor sobredimensionada atinge demasiado depressa a temperatura de ida pretendida e desliga. Pouco depois, a temperatura desce, a bomba volta a arrancar. Este chamado “ciclagem” (ou taktung) tem várias desvantagens: o compressor sofre mais desgaste devido aos arranques frequentes, a eficiência global desce cerca de 10–15 % e o investimento inicial foi desnecessariamente elevado.

As bombas de calor inverter modernas conseguem modular a sua potência, mas também elas têm uma potência mínima. Se a necessidade real estiver, de forma sistemática, abaixo desse limiar, mesmo os equipamentos inverter vão ciclar com frequência.

Problema: subdimensionamento

Uma bomba de calor demasiado pequena não consegue, nos dias mais frios, manter a casa confortável. A resistência elétrica de apoio entra em funcionamento – com um COP de 1,0 em vez de 3–4. Se a resistência trabalhar muitas horas por ano, os custos de eletricidade aumentam de forma sensível e o conforto pode ficar comprometido.

A regra de ouro

Projetistas experientes tendem a dimensionar as bombas de calor de forma ligeiramente contida, em vez de generosa. Em poucos dias muito frios por ano, a resistência elétrica pode apoiar pontualmente – o que é, em geral, mais económico do que ter um sistema permanentemente sobredimensionado. Para bombas de calor inverter com gama de modulação de cerca de 30–100 %, é habitual uma afinação para 90–100 % da carga térmica calculada.

Enquadramento em Portugal: normas, regulamentos e incentivos

Normas e regulamentos técnicos relevantes

Em Portugal, o dimensionamento e a avaliação de desempenho de bombas de calor e sistemas de climatização enquadram‑se principalmente em:

  • Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios (REH), que integra o Sistema de Certificação Energética (SCE) gerido pela ADENE;
  • Normas europeias EN 12831 (cálculo de carga térmica) e EN ISO 6946 (cálculo de coeficientes de transmissão térmica U), adotadas como normas portuguesas (NP EN);
  • Normas de produto e desempenho para bombas de calor, como EN 14511, EN 14825 (SCOP e eficiência sazonal) e EN 16147 (AQS).

Enquanto na Alemanha se recorre frequentemente às diretivas VDI 4645/4650 para cálculo da potência e da eficiência sazonal, em Portugal a prática baseia‑se sobretudo nas normas EN e nos métodos de cálculo definidos pelo REH e pela ADENE para o Certificado Energético.

Regulamentação energética dos edifícios

O REH define:

  • requisitos mínimos de isolamento (valores U máximos para paredes, coberturas, pavimentos e envidraçados), que variam com a zona climática;
  • exigências de eficiência para sistemas técnicos (incluindo bombas de calor);
  • critérios para edifícios novos e grandes reabilitações, incluindo a obrigação de edifícios de quase zero energia (NZEB) em muitos casos;
  • metodologia de cálculo do desempenho energético, utilizada para o Certificado Energético.

Para edifícios novos e reabilitações relevantes, o cumprimento do REH é obrigatório e verificado no âmbito do licenciamento e da certificação energética.

Certificação energética e etiquetagem

Em Portugal:

  • Todos os edifícios novos e a maioria dos edifícios existentes em transações (venda, arrendamento) necessitam de Certificado Energético, emitido por peritos qualificados e registado na ADENE.
  • As bombas de calor, como equipamentos, estão sujeitas à etiqueta energética da UE, com classes de eficiência (A+++ a G) e indicação de SCOP/SEER.
  • O Certificado Energético do edifício apresenta uma classe de A+ a F, bem como recomendações de melhoria (por exemplo, instalação de bomba de calor, reforço de isolamento, painéis solares).

Incentivos e apoios financeiros em Portugal

Em vez de programas alemães como BAFA ou KfW, em Portugal existem outros mecanismos de apoio, que variam ao longo do tempo. À data de redação deste texto, são particularmente relevantes:

  • Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis (gerido pelo Fundo Ambiental):

    • Apoia a instalação de bombas de calor, isolamento térmico (coberturas, paredes, pavimentos), substituição de janelas, sistemas solares térmicos e fotovoltaicos, entre outras medidas.
    • Tipicamente comparticipa uma percentagem do investimento elegível (por exemplo, 65–85 %), com tetos máximos por tipologia de intervenção e por edifício.
    • Destina‑se sobretudo a habitação própria permanente e edifícios existentes.
  • Incentivos ao autoconsumo e comunidades de energia renovável:

    • Apoios pontuais à instalação de sistemas fotovoltaicos para autoconsumo, por vezes combinados com armazenamento.
    • Regras e montantes variam consoante os avisos do Fundo Ambiental e outros programas.
  • Benefícios fiscais (a verificar em cada ano fiscal):

    • Em alguns anos, parte do investimento em equipamentos de energias renováveis (incluindo bombas de calor e solar) pode ser dedutível em sede de IRS, até a certos limites.
    • Podem existir taxas de IVA reduzidas para determinadas intervenções de reabilitação energética em habitação.
  • Programas municipais ou regionais:

    • Alguns municípios ou regiões podem lançar programas próprios de apoio à eficiência energética e renováveis, complementares aos nacionais.

Para dimensionar corretamente a bomba de calor e maximizar o apoio financeiro, é aconselhável:

  • verificar os avisos em vigor no site do Fundo Ambiental e da ADENE;
  • garantir que o equipamento cumpre os requisitos mínimos de eficiência (classe energética, SCOP) exigidos pelos programas;
  • articular o projeto com um perito de certificação energética, de forma a refletir as melhorias no Certificado Energético.

Conclusão

Em síntese: A potência correta da bomba de calor resulta da carga térmica do edifício, acrescida das necessidades de AQS e de eventuais períodos de corte ou gestão de carga. A carga térmica pode ser determinada através de um cálculo normativo (segundo as normas EN e o REH), por regras de bolso com base na área útil ou a partir do consumo energético anterior. O essencial é evitar tanto o subdimensionamento como o sobredimensionamento: uma bomba de calor ajustada à carga térmica trabalha de forma mais eficiente, tem menor desgaste e, em conjunto com um bom isolamento e eventuais apoios públicos, contribui para reduzir significativamente os custos de energia ao longo da vida útil do sistema.


Mais sobre bombas de calor

Artigo Foco
0 Bomba de calor: guia completo Visão geral e introdução
1 Como funciona uma bomba de calor? Princípio físico
2 Os componentes Evaporador, compressor, condensador
3 Indicadores e dimensionamento COP, JAZ, SCOP
4 SCOP explicado Avaliar a eficiência
5 Calcular potência Está aqui

Quem quiser verificar a eficiência da sua bomba de calor após a instalação encontra no artigo Otimização & configuração conselhos práticos sobre curva de aquecimento e equilíbrio hidráulico. As diferentes formas de funcionamento – monovalente, bivalente, híbrida – são explicadas num artigo próprio.

Fontes

  • Normas EN para cálculo de carga térmica e coeficientes de transmissão térmica, adotadas em Portugal (EN 12831, EN ISO 6946)
  • Regulamento de Desempenho Energético dos Edifícios (REH) e Sistema de Certificação Energética (SCE), ADENE
  • Documentação técnica de fabricantes de bombas de calor (folhas de dados de produto, SCOP segundo EN 14825)
  • Fundo Ambiental: Programas de apoio a edifícios mais sustentáveis e autoconsumo fotovoltaico
  • ADENE: Informação sobre Certificação Energética e requisitos mínimos de desempenho

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